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Uma sentinela à beira do precipício vaticina seu desfecho poético

Ele havia feito todas as tentativas, e prometido novos desgastes,
E ele havia ponderado, suado, dormido e perdido seus olhos e suas guirlandas de auréolas.

Ele sabia da inexistência da unanimidade do consenso dos sábios,
E ele havia rido de todos os poemas ofendidos, e lacrimejado com todos os poetas ofendidos, e se emborcara numa existência onde somente surgiria ou uma civilização de gigantes, ou uma civilização de anões.

Ele não dizia que não havia mais cidades, não negava o azul,
E ele bebera de todas as cores tóxicas, e reunira velhas tribos em seus velhos pulmões.

Ele havia lutado todas as guerras injustas, pacificado todas as terras dementes,
E ele havia seduzido os estigmas dos santos, pisado nas feridas dos seus heróis reduzidos, e retraído seus ocos primórdios, e na queda havia cantado, cantado, cantado...

Ele havia irrompido encharcado nos seus parcos caminhos e tergiversado itinerários em trilhas alheias,
E ele havia mudado, depois mudado, e mudado depois de mudado,
E ele havia dito "eu serei", e dito "eu sou", e dito "eu fui"...

Ele havia caído com asas e levantado com asas, e havia esquecido seu nome esquecido,
E ele havia chorado e fizera chorar, e chorava novamente, e chorava novamente, e chorava novamente.

Ele havia se cansado de repetir, de repetir, de repetir, de repetir, de repetir, de repetir, de repetir.
E ele havia repartido, repartido, repartido, repartido,
E havia sido o lobo faminto nas dúvidas do paraíso precário das sutilezas mal definidas.

Ele havia morrido e nascido, e devorado seus silêncios;
E ele havia renascido e remorrido, e queimado seus pensamentos,
E ele havia olhado embaixo de todas as pedras e rodopiava no pó cansado dos círculos, e não sorria, não sorria, não sorria.

Ele havia sofrido e feito sofrer, e ele hesitou em seus êxitos, e seus sofridos amigos o ouviam dizer: "será ele? seria ele? serei ele?"...
E ele estava na última noite, da última oitava, da última ronda, e o galo cantava abraxas, cantava abraxas, cantava abraxas,
E ele fendeu sua língua, apodreceu sua língua, cuspiu sua língua, e espiou seu caos e sorriu seu eclipse sozinho.

- Então ele abruptamente se evanesceu, e em todos os seus insignificantes ardores inscritos, olhou para o precipício, olhou para os céus, e se absorveu...

(Homenagem a W.B.Yeats e T.S.Elliot)
ErlKoenigKunstler
Enviado por ErlKoenigKunstler em 05/09/2006
Reeditado em 04/10/2006
Código do texto: T232984

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Sobre o autor
ErlKoenigKunstler
Santo André - São Paulo - Brasil
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