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A rameira



Uma rameira em Kosovo procurava no alento o contento para o seu corpo, que fora a necessidade de comer o alimento que vinha lhe saciar a fome e beber da água para saciar a sede. No entanto, os abutres rejeitam aquilo que não fede nem cheira, ou se humilha a espera de ser notado, ou procura notar-se em meio aedos e coesos arbustos cheios de espinhos. O seu odor é flâmula, são lágrimas petrificadas, sãos, seus sonhos destrinçados, com pérolas jogadas aos porcos de uma vila em meio a infinita sonoridade bélica daquilo que se finda a espreita do renascer das almas e das cinzas: uma fênix díspar e voluntariamente sedada para não mais sentir a calmaria, não mais ouvir a alegria e nunca ter para si o contentamento.
O gozo não tarda, mentalmente se legitima: uma rosca caramelada traz-lhe a paz que precisa aguçando o seu potencial de felina em busca da caça, instinto natural, mulher, menina... rameira no interior do nordeste. Roupas confusas, cores complexas pela sujeira, rendas confundidas com rasgados, perfurados por balas? Corroído por traças, que se alimentaram à noite.
A rameira calca, passeia, procura, caminha, caminha para encontrar aquilo que lhe valha a procura. Tem o intuito de cristalizar o único sentido da sua busca que é a satisfação. Ninguém a nota como aparenta, ou seja, aparenta aquilo que não mora dentro de seu ego. É mulher, antes de tudo. Tem olhos azuis, boca afinada, cabelos louros, seios fartos, corpo esguio e porte de senhora civil. É civilizada a dona caminhando entre os objetos desalmados daquela praça, onde logo em frente num percurso calmo de três minutos estão famílias abrigadas num tumulto primitivo e predador. Família cujas casas foram arrancadas por propósitos políticos de quem deseja além de uma rameira um estatus internacionalmente respeitado. E adquirem esse respeito assolando ideologias e conceitos daqueles que estabelecem um limite baseado na hierarquia de centenas de séculos constituídos. Enquanto ela, a rameira, nem respeito ambiciona, só deseja - esquecendo que o deleite é apenas o prelúdio para o seu fiel propósito de satisfação -, a fome.
Ambiente hostil de alta periculosidade, bombas implodindo em suas nádegas, dentro do peito ansioso por um desejo natural e instintivo. Ela percorre caminhos insolúveis em sua memória, é capaz de detalhar cada ação transcorrida em sua volta a três horas passadas. Luta interminável, continuada, pés cansados, estômago vazio, tristeza e fábula dividindo espaço em sua face, tristeza por estar vivendo o que vê, fábula para aludir quem a vê, uma dama cheia de atributos consideráveis e palpáveis. Mas, não a corpo sem mente que sustente a vida, pensa a possibilidade de não existir vontade naqueles homens amedrontados pelo risco de não mais viverem. Sua insistência pela sobrevivência persiste sob a chuva do findar da tarde, sob o sol do raiar do dia, a neblina, o ofuscar das luzes químicas, o rodopiar dos membros sofridos. A vaidade de se salvar consome o pouco da sua capacidade de articular um pensamento: as hipóteses se refletem lentas, a memória esmaece como a tinta da reprografia num papel antigo.
Já não existem dias, arbustos coesos donde poderia esconder o seu ganho, uma batata, um tomate, uma rosca caramelada. A rameira não anda, nem luta, nunca lutara por nada que lhe parecesse interminável. O gozo poderia parecer-lhe infinito há vinte cinco anos quando a pele ainda tinha elastina, os olhos contornos suaves, os seios adornos protuberantes.
Kosovo do pássaro “kos”, melro, centro político e religioso do Estado sérvio no medievo, quase nunca soube o que é liberdade. Imagem romântica de uma realidade política merecedora de toda culpa punida com sangue e lamento. Vieram povoá-la em outros tempos com albaneses convertidos ao islamismo, alvo fácil para o desejo dela, um sérvio cuja fé cristã-ortodoxa não sabe se estanca a ferida, se ora para abençoar a existência póstuma ou se aproveita a vida nos braços de uma madalena não arrependida, que insiste em repetir dez vezes ter um filho que pratica medicina.
A guerra dele com ela se compara ao ritmo acelerado dessa canção de combate travada entre o governo central e uma província separatista, que deixa seus corpos trêmulos no monastério sérvio de Visoki Decani, em Kosovo, donde o cristão pratica ritual frente ao sarcófago, donde os monges cristãos abrem a alma para as preces purificar-lhes a vida com o perfume dos mortos, e são assim desde o século XIV, quando a rameira nem vivia para observá-los e desejar roubá-los do mito.
Túlio Henrique Pereira
Enviado por Túlio Henrique Pereira em 25/01/2006
Reeditado em 25/09/2006
Código do texto: T103821
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Sobre o autor
Túlio Henrique Pereira
Itumbiara - Goiás - Brasil
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Túlio Henrique Pereira