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Crônicas de uma Esquina 1

 CHINELOS – DE – DEDO

Existem coisas das quais não nos desfazemos nunca. Outras, mais pueris, escoam pelos ralos da memória. Destas, não restam senão ralas e imprecisas recordações. Desbotam com os anos que nos desbota a todos. No entanto, as primeiras, trazemos coladas ao corpo e, mesmo invisíveis, podem ser sentidas por uma espécie de olfato genético que não perde seu vigor, malgrado o peso da idade.
São objetos que se não valem mais pelo uso, ajudam a recontar nossa vida, expondo-a tal como ela se oferecia. Claro que eu poderia evocar a calça Lee, o sapato plataforma feito por encomenda, os perfumes Vitess e Lancaster comprados às Importadoras, as camisas Lacoste e mais uma miríade de coisas comuns naquela época.. Mas não. Em primeiro lugar, porque na minha juventude, restrita aos domínios de Marechal Hermes, nunca tive uma calça Lee de verdade e o sapato mais moderno que calcei era um salto carrapeta que me esmagava o calcanhar e o peito do pé. Quanto aos perfumes, usava a Colônia de Alfazema que ficava no pequeno armário do banheiro. Já naquela época, podia-se, pela roupa e pelo cheiro, alinhavar o perfil dos rapazes e moças em uma festa ou roda de esquina, espaço predileto de jovens adolescentes, mas nem sempre tolerado por pais austeros e cuidadosos.
No entanto, refiro-me ao chinelo-de-dedo. Como toda rara invenção, era simples e eficiente por seu multi-uso. Quem nunca foi para a escola com um dos pés devidamente calçado e o outro acomodado no providencial chinelo por conta de um dedão esbagaçado por uma topada ou unha encravada? Era essa a solução materna para evitar a gazeta. Mas o chinelo também prestava-se às mãos. Impróprios para eventuais carreiras, lá se ia ele para entre os dedos. Nessa condição, era também utilizados nas peladas em campos menos conhecidos, pois chegar em casa sem ele, por conta de algum larápio, não era coisa que se passasse em branco. Ainda nas mãos e delas saindo –  à maneira de um rústico e desobediente bumerangue – servia para arrematar frutas das árvores e para recuperar objetos que ficavam presos na fiação dos postes que cortavam o conjunto residencial. Era comum a tira arrebentar por conta de algum acidente, mas corrigia-se a pequena avaria atravessando-lhe a tira com pregos e grampos de cabelos. Tinha que ser usado até o fim, até o máximo de sua gastura.
Era comprado nas feiras. De baixo custo e, portanto, bem ao gosto do bolso magro que precisava esticar o curto dinheiro, soltava as tiras, dava chulé e desbotava com facilidade. Depois vieram outras marcas e qualidades. Seu designer evoluiu e assumiu formas mais ortopédicas. O velho chinelo-de-dedo das feiras envergonhou-se e passou a ficar restrito aos limites da casa, local onde não temos vergonha de expor nossos velhos trastes.
Hoje, ao rememorá-lo, e estando eu mesmo com uma legítima havaiana de última geração, brindo àquela infância que mesmo indo tão longe, tão rápido recupero numa simples lembrança de um chinelo-de-dedo cujo cheiro me vem, não mais com a repugnância do chulé, mas como uma fragrância que não tem preço ou griffe. É simplesmente a minha vida revisitada.

                                                                             Aldo Guerra
                                                                            Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 26/01/2006
Código do texto: T104003
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra