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JOÃO E MARIA / MARIA E JOÃO

   



     Casaram-se no começo da juventude de forma insensata, no calor da paixão, após um beijo roubado com o consentimento da parte ultrajada. Seguem o destino que lhes foi ofertado diante do estado de onde surgiu o romance e a vida que ora é recontada.
     Ainda criança, seguia Maria como todos os dias para escola.  Quando ia passando no meio da estrada, lhe surge do nada a figura do João, rapaz, já bem feito, escolado da vida como história escrita e folha corrida.
     Maria, no entanto, na juventude de seus 14 anos, ainda sente medo do seu sentimento que vem de repente. Enquanto se cruzam no meio da estrada, fica o furtivo olhar lançado de longe e se afasta cada um pra seu lado.
     Dias depois, na festa da escola, quando ainda se encontra dentro da aula, surge o intruso, o galante João com o chapéu na mão como se pedindo perdão pelo roubo do olhar que ousou ofertar.
     Novamente Maria se sente confusa com a aparição daquele peão que é conhecido como o valente João. Sem nada falar, apenas se afasta e volta e meia olha para traz, querendo com isto, saber se   João também olha. Neste momento, novamente se cruzam os olhares.
     Na festa de São João, que veio depois, se encontram e então o atrevido João se aproxima de forma arrojada, rouba-lhe o beijo, que cortou o coração da doce Maria a partir daquele dia.
     E assim, veio à tona o casamento que, sem constrangimento por parte dos pais, seguiu a tradição comum nos lugares em que se pede a mão e com isto se leva a mão e o corpo também. Depois do casório veio o foguetório com promessas e juras de constante amor e segue o casal para o lar desejado, que fora planejado pelo fogoso João.
     Um simples casebre no meio da mata, onde começam uma vida e uma nova história que deverá ser contada agora. Diante do fogo cruel da paixão, João e Maria, Maria e João se entregam ao amor, com muito pudor e certo receio da doce Maria diferente, no entanto do fogoso João.
     Os dias se sucedem e no eterno recomeço sempre os mesmismos, do trabalho e jantar, banho e depois, os amores furtivos, numa cama tosca com colchão de capim. Diante da fúria e sabor da paixão nunca se vêem conseqüências da falta de planejamento que logo vem com um novo rebento.
     A criança q surge de forma apressada para um casal que nem avaliara, quanto poderia ficar à conta do próprio hospital desde o pré-natal.
     E assim foram seguindo a seqüência da inconseqüência da falta de senso, onde apenas o que segue é o furor da juventude que se entrega em todos os momentos àquilo que julgavam ser amor.
     Acordar, trabalhar, almoçar e jantar e depois sempre vinha o deitar que, diante da falta de sonhos, seguia uma rotina de deitar e ...amar.
     Passando o tempo, vieram os rebentos que, sem esperanças, eram jogados no mundo como crianças que seguem uma rotina sempre costumeira de quem vivem à margem da vida, sem projeção de futuro. O tempo da juventude, se fora de forma apressada e nem mesmo a velhice trouxe a sensatez que se espera dos velhos casais, pois se encontram jogados à beira da estrada, à margem da vida com seus cinco filhos, sem nada saber.
     O conhecimento, que seria normal, ficara restrito ao conhecimento da vizinhança que sempre é nada, apenas as mesmas repetições das gerações que se sucedem. O fogoso João, há muito capenga, puxa uma perna, resultado de uma queda no amansar um burro ainda xucro. Maria, seguindo a mesma rotina de todas as matronas, se queda em frente a TV para ver e chorar com os dramas, notícias e novelas.
     E seguindo a seqüência de eternas rotinas que se descortinam para a maioria, já não se vêem João e Maria com o fogo da vida. O tempo acabou com o fogo da paixão, restando apenas os queixumes que ficam diante das cobranças que são efetuadas de coisas que nem sempre leva a lugar nenhum.
     Maria, cansada, se queixa da vida, da falta de tudo, que sempre queria, sem saber na verdade o que isto seria. João, no entanto, puxando da perna se queixa das dores, nos dias mais frios. Os filhos já se espalharam para seguirem os mesmos caminhos que fizeram seus pais, deixando-os sozinhos, com suas dores, suas novelas e noticias que são veiculadas.

     Já cedo da noite o pobre João se deita e dorme com roncos estridentes, enquanto Maria se posta em frente a tv, para ver os enganos que são feitos para iludir e amortecer as vontades ou mesmo criar desejos que nunca serão satisfeitos.
     O tempo passa veloz. João, na rotina, às vezes urina fora da latrina, o que irrita Maria que, no outro dia, tem que lavar o chão que já fede com aquela seqüência repetida tantas vezes por ano.

     João, às vezes se irrita e, num dia depois de uma briga de muitas palavras de pouco sentido, se afasta de casa de braços dados com outra mulher, deixando Maria sofrendo e chorando o seu abandono.  Maria, chorosa, diante das visitas daqueles que vinham de todos os lados, naquele momento, se lamenta numa solução chorosa e arrependida pelas palavras tão duras faladas ao pobre João.

     Depois do velório, Maria, sozinha, liga a tv e se esquece daquilo que a fazia sofrer, pois a novela entorpece os restos dos sentidos que ainda se encontram abertos ao sofrimento, ao lamento daquele momento.Com o passar do tempo, Maria se lamenta da solidão do marido que fora, do doce João, dos filhos casados, dos netos que vivem na grande cidade onde volta e meia vai ver e sentir aquilo que a vida sempre lhe negara.

     E numa tarde, quando se preparava para sentar-se à frente da tv para ver a costumeira novela da tarde, Maria vê João, que voltara para lhe fazer companhia. Neste momento, Maria vê o fogoso João de forma bem clara que lhe estende a mão e partem novamente para reconstruir uma nova vida.




VEM-16/02/03



 
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 03/02/2006
Reeditado em 08/03/2009
Código do texto: T107693
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Vanderleis Maia