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O ano havia começado sem velas, sem promessas, sem nenhum clique e consciência. Passar a vida em revista outra vez fora decidido que não, já não havia necessidade de revisitar velhos medos, nem melodias, nem o sótão onde havia construído a paisagem diáfana do seu passado. Decidira por um oposto ao desejar, quem sabe pulverizar essa traça que corrói a gente por dentro, esse atraso cognitivo a cada precipitar dos novos ciclos. Via agora sua vida em forma de vários fios  quebrados, emendados e torvelinhados sobre sua cabeça, nenhuma transa na memória, amor em off, nem mais suicídios para o fim do dia.  Talvez um inóspito e áspero vazio só perceptível nos intervalos dos compromissos quando a memória remexia e só encontrava referências vagas, adesivos com areia que não colavam mais em nenhuma superfície e caíam no chão logo que se virava as costas. A saliva não era mais azeda, nem doce, nem grossa, nem amarga, nem fria. Era só o cuspe despido dos desejos pueris de uns vinte e poucos anos e que deixava fluir entre os dedos, sem nem mais amargura, nem ventura, nem palavras que se pudesse achar descritas em vernáculos sentimentais. Era como se de tanto de atrever a peitar a vida, tivesse construído de si mesma um totem a quem admiraria e renderia sacrifícios hercúleos, apenas em nome dessa energia que brotava em forma da lava das palavras antes grudadas nos tecidos da mente. Era como se precisasse só de si e pudesse transformar aquelas subjetividades adormecidas nas pupilas em personagens de um romance balzaquiano a qualquer momento que quisesse e sem precisar do gênio; só e apenas emoldurando a massa, matéria-prima que habitava no mundo das suas lástimas e das pequenas alegrias simples que aprendera a cultivar à força dos sábios e dolorosos ensinamentos noturnos.  Servia-se à soma delas como se fosse conviva de um banquete de segredos, premonições, percepções e porque não dizer alívios que iam dos fitoterápicos aos alopáticos, passando pela metafísica congruente das estrelas.  Deles poderia lançar mão a qualquer hora e lugar, de tanto conhecer os simulacros e o verdadeiro conteúdo dos frascos, mesmo não sendo translúcidos, tudo num nível imaterial ou material demais que desaparecia a um olhar supérfulo, como um lírio some da vista de uma dona de casa entediada e a luz do crepúsculo some dos olhos de um funcionário na volta do trabalho. Um dia eu acordei de novo e o mundo não era mais estanque ou era tão estanque que eu não mais me dava conta da importância de ser ou não ser.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 17/02/2006
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T113088
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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