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Formigas no chão


Um corpo sobre um prédio numa avenida. Uma fronteira. Em baixo, pra lás e pra cás. Pés, tamancos, sapatos. Tudo em perfeita harmonia. A vida em movimento, os pés em movimento, os carros em movimento. O vento, a poeira, a luz, o mundo em movimento. Em cima, a alma presa, subjugada, não sabia escapar, então tolerava. Em baixo o pipoqueiro, a criança segurando o balão, o homem vendendo cartão. Em cima o silêncio do vazio, a introspecção. Talvez ninguém o visse. Cada qual com seus passos e pensamentos escrevendo circunstâncias de suas vidas, em ritmos lentos ou rápidos. Cada um consigo ou com o outro, mas o corpo só. Só de si, só da vida, só do mundo, só das vozes, só dos toques. Um vento passou... Naquele instante não haveria mais súplicas, nem conselhos, nem remédios, nem diálogos, nem idéias. Um vento separava a cor da escuridão, o sonho da frustração, a vontade da abdicação. Em baixo as formigas, um palhaço, um cidadão. Em cima um corpo, despido de sentido, foragido da essência, rejeitado pelo ego, massacrado pelas próprias mãos. Não busca mais nada, não quer mais nada, nada lhe interessa, nada lhe desperta. Só o ímpeto de “desexistir”. Nesse instante tudo é nada, e o nada seu tudo. Tudo já foi, e o mais nunca será. Tudo nunca foi. Não é pesadelo, não é desespero, é o frio de “desalmar-se”. Não tem lágrimas, já secou. Não tem volta, não tem jeito, não tem rota, não tem porta. Uma nuvem apareceu, escureceu. Em baixo tudo acontece, tudo aborrece, tudo contamina, tudo anima. Em cima, o corpo esquece que já foi gente, que tem lembrança, que já andou. Nesse instante, minúsculo instante, o som sumiu, a dor sumiu, o pensamento sumiu, o espírito sumiu. O corpo agora não mais estático, inclina-se definitivamente para a frente e... fronteira. Cruzou. Pluma no espaço. Gravidade. O tempo parou. Cai, vai caindo, caindo, caindo... Um vento passou, uma nuvem passou, o mundo parou, o instante se quebrou. Não tem como voltar, não tem com ajudar, não tem como fazer. Um susto, um frio, um suspiro, último suspiro, chão. Lá em baixo, sapatos, tamancos, formigas, palhaço, homem vendendo cartão, menino segurando balão e um corpo abraçado ao chão. Agora sem pulsação, sem rejeição, sem conversação. Um corpo beijando o chão. Sangue no asfalto. Corpo coberto com papelão
Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 09/03/2006
Código do texto: T120893
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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