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Perda

Perder...
 
Se me for capaz descrever o vazio da perda, ao perder-me da vida seguirei ao panteão dos deuses, ou, ainda em vida, poderei ser coroado com a glória de louros.

Se me for possível figurar a alma congelada e perplexa, poderão construir-me uma estátua de bronze...

Noite fria, congelada, ando descalço, aflição.
Alma retalhada, afogada, triturada.
Coração como cristal fragmentado,espezinhado.
Fibra desmanchada.
Vazio do universo, do silêncio solitário, solidão.
Chão que nem abismo, abismo-escuridão, perdição.
Pássaro que foge, fugido, foragido, furação.
Dedos que se quebram, quebradiços, quebram tudo, colisão.
Faca que penetra, inquieta, indigesta, maldição.
Lágrima que escorre, que percorre, que transcorre, rouquidão.
Espírito que escurece, empobrece, endurece, diluição.
Corpo que embrutece, se fadiga, se estica pelo chão.

Perder... antes de deixar de ter é deixar de ser, de se ter, de se ater. Meu espírito esmaece, minha força entra em forca, minha voz...és tão só.  Quem dera perder deixasse vazio... Perder deixa buraco, deixa cratera. Minha alma abandona-me sem licença, perambula pelo chão e rastejando, suplica pela volta, não tem volta...não tem rota.

No instante exato da perda o meu mundo paralisa, o que penso entra em choque. Sou um curto-circuito. Espantalho no sertão. Absorto, apaixono-me pela dor. Meus olhos se embebedam, meu corpo se absorve, minha mente, lentamente...

Nesse instante o meu ímpeto se desfaz, quero paz. Viro criança, só sou lembranças... de momentos, de palavras, de gestos incertos, de olhares tristonhos, risonhos, sublimes.Viro-me em passado, que me habita, e não encontro saídas.

Minha mente se dilui, minha força não tem força, meus sentidos já não sei...

Nesse instante minha luta é derrota, minhas discrepâncias alianças, minhas mágoas compaixão, as ofensas só perdão.

Querer não é mais poder, fazer não é mais acontecer, amar...ah amar... que o universo te comunique o meu amor em luz de intensidade e fulgor. Porque te quis, porque te quero, porque te espero, porque... Ah... Já não sei mais porque.

Quando se perde, não se sabe mais porque fazemos, porque amamos, porque pensamos, porque lembramos.

Só sabemos que perdemos...

Mas sentimos...

que amamos.

Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 21/03/2006
Código do texto: T126606
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 10:01)