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ORA, ORA...VER ESTRELAS     

        Sem que eu pedisse por isso ou mesmo esperasse, algo de inquietude instalou-se no ar à minha volta. Foi como de repente um marimbondo zangado que se enroscasse nos cachos dos meus cabelos e insistisse em lá permanecer, como a entender que aquele lugar era sua casa.
            A inquietude e o inseto não vieram sozinhos. Trouxeram consigo as mãos inúteis e os pensamentos improdutivos acompanhados da sensação de impotência. Por mais que pensasse, não me era dado ver atitudes que trouxessem a claridade de volta aos fios enrolados dentro e fora da minha cabeça. Os de fora, nem me importo, dado que meus cachos são de estimação e me agradam por demais. Os de dentro, aí é que pega. Impotência porque também minhas mãos não tinham gestos que permitissem expulsar o inseto indesejado que permanecia confortavelmente instalado em minha cabeça e zumbindo o tempo todo de forma a que eu não soubesse mais o que pensava. 
          De repente, eu, muito bem resolvidinha e tão madura a ponto de cair do galho, era apenas uma criança com o uniforme da escola olhando para os lados sem saber qual era a rua que ia dar em casa. Uma criança. Sem norte, sem orientação e sem saber que-mundo-é-esse-de-meu-Deus. Restou-me sentar no meio-fio, descansar os cadernos pesados no chão e ficar olhando o céu. Ora, direis, ver estrelas...Perdeste o censo? Não foi assim que disse o poeta? 
          Pois eu vos direi no entanto : a menina a mirar estrelas viu mais. Havia um enorme espelho nas estrelas e a estrela maior era ela. Levantou-se rapidamente, ainda a tempo de alcançar o ônibus da vida que acabara de passar e tratou de entrar depressinha. Porque a fila anda. E sempre há mais uma bolacha no pacote.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 22/03/2006
Código do texto: T126865

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai