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minha saudade

Faz meses que já não acordo.  Durmo o sono lento dos meus pensamentos que durante o dia não encerram seu estado de vigília.  E passo o dia tentando  rotas de fuga dessa ilha chamada saudade, lugar cercado por um mar solitário e bravio, onde de nenhum lugar se consegue ver o fundo.  A minha saudade remete a um antigo estado de espera, em que ainda cultivava o hábito dos calendários sobre a mesa, a ânsia dos retornos, a recompensa por seguir vivendo um certo destino a contra-gosto.  Também é da falta da paz trazida pelas suas palavras, daquelas varandas, da alma lavada da vida, do canto pueril de criança que semeia pequenos milagres.  Saudades da boca cheia de promessas e preces quando me confessava calada, à noite, como se realmente tivesse a prova da existência dos anjos.  Daqueles  retratos sem poeira sobre a estante e da vontade de que nunca saíssem de lá.  Mas saíram.  Eu saí.  E hoje vivo com saudades do medo da morte e das intermináveis esperas pelo amor.  Já não espero, não sonho e sou vítima de minha própria assombração que me visita todas as noites antes que eu durma meu sono mineral.  Saudades principalmente da primavera, que cismava colaborar para prenúncios claros e desanuviados.  Saudades desse tempo sim, disso tudo e daquela coisa que eu era.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 24/03/2006
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T127858
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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