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  DOMINGO DE AMOR RECÍPROCO

     Domingo, como se sabe, é um dia bolorento. Ainda mais como este, em que chove a cântaros neste Planalto, não tão central como se pensa. Dia dedicado a Deus pela maioria das religiões, mas creio eu, o dia em que o Demo faz a festa. A gente passa o dia inteiro caçando serviço, sarna pra se coçar bastante e ouvindo as idéias que o capeta passa  o tempo soprando nos nossos ouvidos. E se a gente for distraído, acaba prestando atenção nelas e aí vai se coçar pra burro.
     Por absoluta falta de opções, dado o tempo horroroso lá fora; por conta de um sono dos diabos de quem não dormiu tudo que queria e por necessidade absoluta, a donzela aqui se meteu a encerar carro.      
     Tirar manchinhas, deixar o possante com um brilho de moça que passou  horas na esteticista e, claro, ouvindo música enquanto rala, que eu sou filha de Deus e não do outro. Resultado: bateria do carro arriada. Tem coisa melhor pra acontecer num domingo chuvoso? Minha sorte é que se tem algo que nunca deixo de fazer  é botar o seguro em dia. O moço do seguro, simpaticamente, veio rapidinho e foi um docinho de príncipe salvando a donzela em perigo.
     Resumo: tinha tudo hoje pra xingar o mundo inteiro e ouvir todos os conselhos de Belzebu e companhia, estragando retumbantemente meu dia. Mas, por uma ou nenhuma razão, to feliz como criança. Num bom humor que nem multa de trânsito daquelas que estouram o orçamento estragaria. Por quê?  Bem, tenho uma vaga idéia.
     Minha solidão compulsória dos últimos dias, ao contrário do esperado, tem me dado uma excelente oportunidade de estar comigo e me amar ainda mais do que já estou treinada a fazer. Tenho virado uma baladeira por uns tempos, coisa que não fazia já tem um bocado, conhecido gente ótima e muito divertida e , confesso, a maioria com muito menos quilômetros rodados do que eu. E fiquei pasma: absolutamente integrada no contexto com direito a milhares de elogios . Também conheci gente da minha faixa ou um tanto mais, e, igualmente tem sido uma experiência e tanto.
     Nas perdas e ganhos, saí no ganho. To feliz como se tivesse ganhado a mega sozinha, uma semana no Tahiti com o lindaço do George Clooney e ainda de quebra, to me sentindo a rainha da cocada preta.
     É bom um domingo assim. Por mim podia ser domingo todo dia, que eu não to precisando de mais nada. To me bastando tanto, que não sei o que fazer com o troco. Se alguém aí tiver alguma idéia, email me, por favor. Domingo chuvoso fazendo amor comigo mesma: era tudo que eu precisava. E nem é masturbação. Nem mental.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 26/03/2006
Reeditado em 26/03/2006
Código do texto: T128862

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154012 leituras)
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Débora Denadai