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 O DISCURSO

Quero construir um poema que me ensine
diluir em meio à multidão
meus fantasmas
para isso, lavarei as mãos em pagina púbica
e direi a todos que ao contrario do que pensam
tudo o que fiz
foi um risco torto e despretensioso
em torno do meu umbigo e do umbigo dos outros

Mas,
da minha boca
que tem vocação para o extermínio
atirei palavras como balas perdidas em todas as direções
e se na tua garganta uma palavra ácida
queima e teima em te propor o suicídio
é porque já não tinhas mais salvação
e eu que não tenho nada haver com isso
que estou aqui apenas para lavar as minhas mãos
sei que um dia
nesses teus olhos vermelhos
quase cegos e mudos
surgirá uma outra figura
tão inexpressiva e doente como eu e você nesse mundo...

Mas,
querem me tocar?
toquem-me!
sou podre e feio como minha mãe me fez e te fizeram as mães de vocês
de algum modo somos todos parecidos uns com os outros
e imaginar que se vive uma vida inteira para aprender como conservar os dentes
como mantê-los branco e perfeito para um sorriso que vala um papel na novela das oito
ou quem sabe um beijo em uma boca de dentes brancos fedendo a listerine.

Mas,
e agora Jose?
e agora joão?
liga não são só vertigens!
e depois nem é minha aquela boca presa no balão
de oxigênio ou seria veneno?
mas bem que minha mãe me dizia
sorria meu filho...,sorria!
que a vida é mais fácil para aqueles que mostram os dentes...

Mas,
entendi errado e mordi feito um cão sem dono
mordi, entretanto, não abri trincheiras
e nunca usei meus fuzis
Estive quase sempre ausente dos combates mais importantes
no Maximo:
desarmei as flores e mijei num chafariz...

Mas,
onde havia pedra
lá estava eu com minha picareta de ponta grossa
dando na pedra como uma mula teimosa
como os que buscam o ouro
e porque nunca encontram
vêem-se mais próximos da morte a cada enxadada
sim, tenho minhas mãos calejadas

Mas,
não foi por causa disso que eu me ferrei nessa vida
muito antes de mim e ate quem nem se parecia tanto comigo assim
já se ferrava
é a maldita lei do mau agouro
mal agente nasce e já vem àquela parentalha toda
com cara de fome mostrar que a vida não vai ser nada fácil...

Mas,
por incontáveis noites
sonhei coisas nascidas da alma
e ate cheguei a vislumbrar um céu azul
em uma caneca de cachaça
era engraçada...
era muito engraçada, tanta felicidade por nada
e tanto amor sem motivo...

Mas,
O homem aguarda
E não quer para si esse destino
no entanto tudo esta irreversivelmente escrito
e nada fará romper o que lhe resta ainda dessa vida
o que é para fazer tem que ser feito
nenhum homem foge impunemente da estrada que escolheu
a não ser que dê um tiro no peito
não dele, mas, de um outro sujeito
que diz não ter nenhum defeito....

Mas,
melhor não arriscar
vai que a maioria esta certa aí você pode se ferrar
melhor ser humilde
que dos humildes ate os assassinos tem dó...

Mas,
quem não se arrisca bebe sempre a mesma água e continua com sede
come sempre a mesmo grão e continua com fome
porque não há nada pior nessa vida que a mesmice
e é preferível atirar na própria perna
e ter uma muleta para justificar a demora
que passar uma vida inteira na rotina
feito um idiota coçando o saco...

Mas,
quantos ventos ficaram para trás
e nem soubemos por quais motivos vieram
de certo vieram pelo mesmo motivo das nuvens
que motivam as chuvas que motivam os grãos
e nós por qual motivo viemos?
eis a mais esperada de todas as revelações
e embora os deuses me desmintam
creio eu que vim por pura provocação...



ULISSES de ABREU
Enviado por ULISSES de ABREU em 05/04/2006
Reeditado em 21/09/2007
Código do texto: T134449

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Sobre o autor
ULISSES de ABREU
Viçosa - Minas Gerais - Brasil
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