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O Iluminado

Bem senhores,
Vejo que estão ansiosos por minhas palavras
É compreensível, visto os acontecimentos
Que têm causado tanta celeuma nesta pequena cidade.
Porém peço ainda um pouco mais de paciência
E prometo justificar os meus atos
Tão execráveis aos vossos olhos
Mas que a meu ver são muito naturais
Corriqueiros até...
Vejo que os senhores levantaram as sobrancelhas
Mas eu os entendo
Sinceramente os compreendo.
Sim, deixem-me falar e
Quem sabe aceitem meus argumentos.

É preciso deixar claro
Que isso não é uma defesa.
Não quero, com este relato,
Remover a mácula que tenho sob vossos olhares.

Hora, me pergunto,
Que há de abominável em realizar um desejo.
Sim, um desejo! Por que não?!
Vejo que não acreditam. Quanto a isso, que posso fazer?
Cada um com seus conceitos.

Como sabem, vivo sozinho.
Tenho família, é verdade.
Os senhores já esmiuçaram minha vida
E, com isso, poupam meu tempo e saliva. Obrigado.
No entanto a clareza se faz necessária em um ponto,
Não reneguei meus familiares.
Se não os escrevo, nem os telefono
E vivo como se não existissem
Não é porque os desprezo
Não é porque me causam nojo minhas origens.
Não é isso senhores.
O fato de eu preferir viver a deriva
Foi e é a solução de um problema que sempre me torturou,
Nunca me sentir digno do amor que eles me direcionavam.
Vejo que você sorrir. Compreendo...
No entanto, se pensais que me contradigo,
Verá mais adiante o vosso engano.
Mas não coloquemos o carro na frente dos bois...

Por ter a convicção de que não merecia pertencer à família tão digna,
 Parti.
Parti sem avisar, sem que percebessem
E até hoje, vinte anos depois,
Não sei como continuaram vivendo.
Convenci-me de que esse tipo de curiosidade
Não tem nenhuma importância.

Eu sou minha família,
Todas as minhas crenças sofreram radicais mudanças
E os valores que me foram passados,
Eu os recusei paulatinamente
Um a um eu os neguei
E me transformei nisso vos fala.

Deixemos o que chamam de moral de lado
Estudaram-me o bastante
E não posso acrescentar nada de novo,
Nesse sentido, ao vosso relatório.
Será que alguém tem fogo...?
Obrigado.
Vocês não tinham uma cela mais iluminada?
Visto o silencio, sou o único aqui...
Ah é verdade, a cidade é pequena.
Continuarei, senhores, após esse cigarro...

............................................................

Pronto.
Sim, realizei um desejo,
Nisso não há crime, entendam-me.
De acordo com meu código de conduta,
Tudo é permitido, já que não há código de conduta.
Seja livre! Essa é a lei divina.
Tens o livre arbítrio!
Ah, sim, as conseqüências...
Não me esqueci delas, é uma lei natural.
Aceito as conseqüências,
Tenho consciência e estou pronto para elas.
Sempre estive.

Naquele dia fui visitá-la sem maiores intenções.
Estava abichornado
Por isso saí de casa e vaguei pela rua sem
Sentido certo até que me veio a vontade de visitá-la.
Não, não foi vontade.
Só fui a casa dela por não ter aonde ir.
Ela também morava só e era idosa como bem sabeis,
Interessava-me por estas coisas.

Há um ano atrás, assim que cheguei a esta cidade,
Ela me fez um convite que estranhei a principio.
Mas encarando sob as vivencias minha
Vi que era lógico manter um relacionamento com ela.
Por que não?
Se estava ao meu alcance proporciona-lhe
Um pouco de felicidade, por que não fazê-lo?
Vejo que você cospe.

Me dê outro cigarro... Por acaso tem vinho por aqui?
O asco que vocês sentem é aceitável
Entretanto, não me comove
Não causa efeito nenhum em mim.
Pelas vossas expressões, vejo que me condeneis
No entanto, senhores, não podeis mudar o passado
E, posso vos garantir, que a ela dei muito prazer.
Quanto a mim, não posso dizer o mesmo...

Vejam bem, o fato de um homem belo ficar
Uma vez ou outra com uma mulher feia e deprimida
Não quer dizer que gosta dela.
O que faz com que suporte o asco dessa situação
É a felicidade, o brilho nos olhos e a recuperação
Da auto-estima da mulher,
Alcançada graças à conquista,
Isso é a suposição que elas fazem,
Que elas tiveram, que foram capazes de realizar.
Imaginem como se tornará a conversa com as amigas,
O orgulho de uma pessoa que vivia deprimida
Ao apresentar o novo namorado!
Podem imaginar o sorriso no rosto?!
Pois eu vejo sua intensidade a derrubar arcabouços
E a libertar o espírito da alegria!

Bem, talvez estejam querendo fazer esta pergunta,
O que acontecerá quando chegar a partida,
No fim desse sonho?
Perguntam-se, esta mulher não me ficará mais deprimida, mais triste?
Se até então suportou o mundo, não será capaz de se matar?
Talvez.
Porém eu vos pergunto,
Por um pouco de felicidade não terá valido a pena?
Uma pessoa que não tinha nada,
Agora tem pelo menos boas lembranças para rememorar e sorrir
De vez em quando.
Essas lembranças não serão um tesouro?
E quando lembrar não será feliz enquanto lembra
Que teve um dia, uma hora, um minuto, em fim,
Um momento de intensa felicidade?
Ah, insistem nisso, o suicídio!
Pois bem, que cometam.
Mas vejam,
Elas não morreriam se não lhes aparecesse na vida,
Não morreriam sem ter esses momentos de felicidades?
Não teriam uma vida mais deprimente fazendo sexo como meros animais?
Eu lhes dei prazer,
E por um pouco só de prazer
Toda uma vida vale a pena.

Conheci Amanda, nem me lembro como.
Sei que mantivemos relação aberta por um bom tempo.
Acostumei-me com ela.
Tinha duas coisas que admirava,
Por isso me sacrifiquei e
Fiz amor com ela pela primeira vez.
Não sabem a felicidade que teve!
Só por aqueles olhos valeu a pena!
Sim ela era velha, poderia ser minha mãe, como observas...
Muitas vezes pensei nisso,
Mas balançava a cabeça e apertava sua gordura flácida em minhas mãos...

Ela perguntava pelo meu passado
E eu dizia que não importava
E a conversa acabava.

Naquele dia não pensei em visitá-la,
Simplesmente cheguei lá.
Ela estava com dores, nada sério,
E começamos a conversar.
Vi que ficou feliz com minha chegada
E isso me dava um certo nojo, mas eu engolia.
Causei aquela felicidade, era o suficiente.
Só porque era velha isso não queria dizer
Que não podia se sentir feliz...

Fomos para a cama,
Ela era enorme
E, não é defeito para mim, flatulenta.

Tudo bem, passamos horas na cama,
Ela suava bastante...
Ela pediu que a amarrasse e fiz isso...
No entanto, no momento de júbilo, que era quando eu a batia,
Ela teve um olhar severo e desfaleceu...
Não me espantei, já esperava aquilo.

Não fui ao telefone para os chamar...
Por quê?
Eu é que pergunto, qual é o meu crime?
Por que os chamaria?
Não sou funcionário público.

Qual o meu crime?

Os senhores têm o direito de pensarem e viverem como quiserem
Mas não me imputem nada,
Não me esmaguem com vossa moral.

Senhores, sou o primeiro dos iluminados,
Eu sou o vosso mais profundo desejo!
Quebrem vossas correntes!

Ninguém vai suportar as coisas do jeito que estão
Quebrem vossas correntes senhores!

Quanto a ela, tenham certeza, estava feliz.
De nada posso me arrepender, de nada!

Quebrem vossas correntes!
Sejam como eu, que degusto a vida sem sobremesa!
Sebastião Alves da Silva
Enviado por Sebastião Alves da Silva em 10/04/2006
Código do texto: T136616
Classificação de conteúdo: seguro

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Sebastião Alves da Silva
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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