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NÃO QUERO SER CONGELADA

     Não gosto de fotografias. Não gosto de ser fotografada. Se você quiser que eu me esconda debaixo de uma mesa ou vire avestruz enfiando não apenas o pescoço, mas o resto todo dentro do primeiro buraco aponte uma câmera na minha direção. Uma metralhadora me daria menos medo. 
     Não gosto da sensação de ser congelada como se aquilo fosse algo que paralisasse a vida e o momento. Não gosto da sensação de estar pasteurizada num quadradinho que vai me amarelar com o tempo e gastar as cores dos meus olhos e a luz do meu sorriso. Definitivamente, não nasci para congelar seja em que condições forem. Já congelei sentimentos e sorrisos voluntariamente por tempo demais na vida. Aliás, nada a ver mas tudo a ver, não gosto de comida congelada. Nenhuma das duas. Gosto da coisa feita na hora, sem planejar a pose ou a receita, botar um tempero qu não estava na previsão e que alguém disse que não combina mas que a mim parece perfeito.
      Suspeito enormemente de gente que gosta de estar assim, certinha, sorriso Colgate, tudo em cima esperando a mira da objetiva. Me causa desconforto. Nunca saberei quando aquela pessoa sorrir sem uma câmera por perto se é pose, educação ou sorriso de verdade. Aí, por derivação, vou acabar desconfiando também de suas lágrimas, o que, provavelmente me levará a ter dúvidas se o ser em questão é gente ou um autômato devidamente programado pra sorrir assim ou assado, conforme as CNTPS(Condições Normais de Tapume e Pressão Social). Definitivamente, Sr. Pasteur, sinto-me como numa experiência das suas: congelada, enrijecida e principalmente, sem alma. e não, gente sem alma, mesmo que linda dentro dos padrões vigentes, são apenas bonecos pra mim. 
     Não hesito em rasgar fotos antigas. Não penso duas vezes. Minha memória visual e outras assemelhadas são  muito mais eficientes. Elas guardam registros que nenhuma  câmera, tecnologia de ponta, jamais poderá reproduzir. Eu registro na maior tranqüilidade o que mais me interessa: a emoção incontida que vaza pelo canto dos olhos, a risada autêntica que quase derruba o sujeito da cadeira, o efeito de um olhar ou um elogio que me derruba automaticamente de cima do salto, o cheiro que permanece anos depois não importa a que distância eu esteja de onde ele veio. NÃO , definitivamente não quero ser congelada
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 19/04/2006
Código do texto: T141758

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai