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"Pela Última Vez"

    ...Tão cedo... Tão tarde... Tanto faz; questionar as horas seria um pouco insano e inútil como tentar entender porque desperdiço tanto tempo escrevendo versos singelos do dia-a-dia, sentimentos medíocres e inoportunos sem nenhum tipo de retorno abrangentemente lucrativo... Mentalmente falando. Depois de me questionar pela milésima vez só hoje, nesse dia interminável; qual foi a principal razão pela qual eu me abriguei, ou melhor, dizendo, me escondi nesse lado obscuro da mente... Perco-me aos poucos no som e na brisa do mar salgado que banha essa praia deserta que vem me sufocando em círculos completos, e é nessa mesma brisa que minhas queridas cortinas beges claras continuam a se insinuarem em tons lentos e amavelmente destrutivos pela plenitude da minha companheira inseparável, a tão menos mencionada (não por min), "La Solitudine".
    Inesperavelmente me pergunto porque o tempo, o tão implacável tempo não aflige essa parte tão insensata do mundo, essa parte tão esquecida quanto eu... Essa ilha da qual me apossei para tentar obstruir todo esse mal que vem me corroendo em partes pequenas, mas mortalmente prejudiciais a minha sofrida existência...
    Já me encurralei em tantos lugares diferentes que seria desperdício de meus últimos momentos tentar descrevê-los de novo. Mas como último recurso me encurralo em frente a essas teclas enferrujadas dessa máquina antiga que foi presente de meu bisavô, que tinha o nome de... Já me esqueci, como já me esqueci de quase tudo que me rodeava, mas ainda guardo suas cinzas em cima de minha lareira... Ás vezes até chego a pedir-lhe conselhos, que claro nunca são respondidos, mas isso é o menos preocupante a essas horas da manhã. O relógio velho na parede me parece a cada dia menos familiar, implacável como essa depressão. Tic-tac, tic-tac, tic-tac, às vezes esse som se confunde com o barulho das teclas dessa máquina que uso para aliviar-me escrevendo as coisas que sei que ninguém um dia vai lê-las, pois após escrevê-los, lanço-lhes ao mar na esperança de que esses pequenos papeizinhos manchados de sentimentos levem com eles essa dor sufocante.
    Tic-tac, tic-tac, tic.... por alguns segundos o "implacável" parou, e eu parei também, por segundos meus sentimentos bons e ruins se foram, por segundos meu coração parou, mas esses segundos pareceram uma eternidade pra mim... Aos poucos tudo ficou escuro e depois foi clareando, clareando, e em um trovão seguido de relâmpagos, tudo escureceu novamente e ali estava eu voando, nadando, nem sei como posso descrever essa sensação, mas isso que me rodeia me parece mais uma pequena imitação do universo, o mesmo universo que sempre quis compreender... Em minha frente foi surgindo flash de sonhos, como se estivesse em um cinema cujo filme seria minha vida, mas aquelas cenas não me eram familiares , aqueles momentos não eram meus, aqueles sonhos tampouco. Em um desses flashes, me vi sorrindo, coisa que já não fazia há dias, semanas, meses, anos, e como se fosse uma conexão entre mim e aquele flash, comecei a sentir aquela alegria, mas não foi suficiente para me fazer sorrir... Continuei a voar e me deparei agora não mais com um simples flash... Como mágica lá estava eu em um quarto bem simples com alguns quadros na parede e um crucifixo bem à direita de meu ombro e a frente tinha uma cama com lençóis limpos, brancos sem nenhuma estampa... De onde surgiu um garoto, meio franzino que aparentava ter uns oito ou nove anos que apareceu de costas para mim, ficou parado por uns três segundos e virou, ele se parecia muito comigo quando eu ainda vivia minha infância... Olhou em meus olhos sorriu e depois se virou, se dirigiu até a cama e se ajoelhou em frente a ela, fechou seus olhos que me pareciam tão tristes e começou a fazer uma oração... Aos poucos suas lágrimas desceram pelo seu rosto. Não me aproximei, fiquei apenas olhando aquela cena triste e quando fechei meus olhos e os abri, estava de volta em minha sala em frente a minha máquina velha de esquecer sentimentos ruins... Aos poucos meus sentimentos voltaram, meu coração voltou a bater... Demorei um pouco até voltar a realidade e a primeira coisa que ouvi foi meu rádio a pilhas ligar pela primeira vez em semanas, e no rádio estavam dizendo que no mar aqui perto de meu refúgio tinha se formado um ciclone que está vindo em direção à ilha e que era para evacuar...
    Levantei-me calmamente e fui até a janela, o céu estava escuro, vários raios e trovões rodeavam a ilha, o mar parecia estar furioso, o vento estava tão forte que arrancou minhas cortinas e as arremessou no chão, eu apenas olhei, aquilo não me amedrontava nem um pouco se quer, me virei e caminhei até a frente de minha cama me ajoelhei e tentei fazer minha primeira oração de minha vida... Ainda lembro das palavras: "Deus perdoe-me por nunca tê-lo mencionado em minha vida, perdoe-me por culpá-lo pelo meu sofrimento, culpá-lo pelos meus erros. Nesse instante tudo que lhe peço é que me dê a única coisa que aspirei por toda minha vida... me dê pelo menos um pouco de paz, nem que seja apenas por um dia, algumas horas, alguns minutos ou até mesmo por alguns segundos. Eu nunca lhe pediria a paz eterna... ah isso eu não desejo, nunca desejei a morte e isso não mudará agora... Amém”· Abri meus olhos lentamente e meu rosto estava molhado, mas não pelas lágrimas e sim pela chuva que aumentava a cada segundo, nem nessas condições eu conseguia chorar, já tinha me esquecido de como era a sensação de ter uma lágrima saindo dos olhos e caminhando todo o meu rosto, a essas horas o ciclone devia estar a uns cinco, talvez seis minutos de meu refugio,furioso como só ele poderia ser, mas não tinha medo... Voltei para minha sala e sem me preocupar, voltei a velha rotina de sempre, voltei a tocar aquelas velhas teclas da minha máquina de escrever e tentar esquecer tudo pela última vez.

ANDREY, 11/11/05.
Andrey Teixeira
Enviado por Andrey Teixeira em 20/04/2006
Reeditado em 15/10/2007
Código do texto: T142440

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Sobre o autor
Andrey Teixeira
Ilha Solteira - São Paulo - Brasil, 28 anos
107 textos (6998 leituras)
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Andrey Teixeira