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Idiossincrasias de um Maníaco

A sequiosa sanha do amante mórbido volatiliza estranhas químicas, compondo um sítio funéreo. Presentes, febris fantasias, fetiches, ferozes feromônios, flagelo. Deitam-se cheiros, tons surrealistas se rompem; a dor, visceral, infalível, qual ácido que percorre a medula, e um grito que rasga, em completa orgia sinestésica...
                                        ...                                                             ...






Mais uma vez eu saio, noite afora, com idéia fixa;
De novo, aquela sensação...
Parto pro meu prazer, meu estranho prazer, maldito prazer,
Que me torna distante, distinto, mutante ante os outros,
Os tantos outros,
Normais, dotados de consciência, sensibilidade, compaixão.
Não as tenho; não... Arrependimento? Clemência? Piedade?...
Nada me tange, me afeta, me provoca...


Tenho uma pena, sim; pena de permanecer impassível
Ao vêlas agonizando,com um mínimo de pulso,
E, no último impulso, clamando por vida,
Vidrando os olhos, secando os lábios, perdendo a tez...
Sim, a violência permeia meus sentimentos,
Encrudelece meu espírito, condena minh’alma!


Sei que o fogo perene me aguarda para, talvez,
Após saldar meus débitos,
Muitas passagens se sucederem, me purificar;
Sei que ao Mal minha conduta herética agrada.
Sou escravo de maldita sina, que me fez bicho, de pedra, Oco!


E como me apraz o balançar das folhas,
Ainda gotejando os sinais finais daquele corpo,
Ressequindo-se no solo; sentir as nuanças,
Os diversos matizes de tamanha selvageria,
Do embate que se fizera no local do assassínio...


O odor de ferrugem exalando de baixo de minhas unhas;
O rosto, o peito, os braços arranhados;
A sensação de mais uma vitória contra a vítima,
Mais um troféu, um gozo alcançado.


Creio que, volta e meia, vejo seus rostos angelicais
Se transformarem em máscaras mortuárias
Ao campear o sono da madrugada;
Vejo seus olhos se arregalarem, seu pavor aflorar,
Sua respiração se findar...
Eu as guardo como funesto brinquedo, rara coleção macabra.


Regozijo vil esse meu, oriundo da dor, do martírio,
Do holocausto de outrem.
Mas meus dias caminham pros últimos; em breve, não mais.
O fim: o claustro, o linchamento, a condenação,
A internação ou eterna expiação, maldição, danação...


Detido, certamente odiado por todos.
Meus crimes: sem defesa, sem argumentos, sem absolvição!
Mesmo assim, movido por essa energia predatória que me Impele, afirmo: não posso parar!...







P.S.: Texto cáustico, que definhou cada átomo de minha natureza humana ao concebê-lo. Não obstante, não me era facultado sufocá-lo, abortá-lo. Cabia-me apenas regurgitá-lo.
                                                                  O autor.
Éder de Araújo
Enviado por Éder de Araújo em 30/04/2006
Reeditado em 08/07/2008
Código do texto: T147961

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Sobre o autor
Éder de Araújo
Santo André - São Paulo - Brasil, 47 anos
158 textos (18909 leituras)
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Éder de Araújo