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(imagem: Mirage, de Salvador Dali)

DE CAVALOS BRANCOS EM TOMATES
(pra alguém que, de tão surreal, me convence que é real)


" Só um idiota não vê um cavalo branco galopando sobre um tomate maduro”
(Salvador Dali) 


   
  Então, tá. O tempo passou e a gente acha que tá maduro, crescidinho, resolvido à custa de uma enormidade pulgas que coçaram atrás das nossas orelhas ( o que é exatamente como deve ser). A gente acha que tem tudo bonitinho anotado no caderninho de matemática a equação perfeita e aprendida: SD + EA = F + D (que traduzindo é que a soma dos seus Sonhos Delirantes com suas Expectativas Acumuladas é exatamente igual a das suas Frustrações mais suas Decepções) e a gente então acha que tá preparadinho pra vida e mandar o resto da humanidade para os lugares mais indecorosos. 
     Então, tá. A gente acha que tomou um monte de porradas no meio dos cornos o que nos habilita, na nossa visão generosa de nós mesmos, a fazermos o que bem quisermos de nossas lindas vidinhas e que nada mais entre o céu e a terra vai nos surpreender. Que venga el toro, que a gente encara. Afinal, a gente já fez bostinha de montão na adolescência, atravessou a faculdade e até mais de uma, fez vários cursos de yoga e meditação transcendental com Ohm ou sem, sabe de cor as obras do Dalai Lama e tem a mais vigorosa certeza que nossos espíritos são dignos de estar em um bom lugar, ao lado direito do Todo Poderoso. Manda porrada que a gente agüenta. 
     Tá. Então, tá. Já sofremos uma porrada monumental de decepções amorosas, teve casamentos desfeitos que pareciam perfeitos no início e paixões avassaladoras que jurávamos que jamais cometeríamos de novo ao acabar. Tomamos uma meia dúzia de pés na bunda, demos outras tantas com o coração em sangue porque ninguém se apaixona impunemente, descobrimos que nã há separação indolor mesmo quando é a única saída honesta, fodemos com toda nossa auto-estima tentando salvar o impossível e temos uma convicção inabalável de que nunca mais entramos nessa. 
     Então, tá. Quando a gente, toda madura, convicta, resolvida e prontinha pra virar monja tá lá quietinha entoando um mantra qualquer ou conversando com o Chefe Máximo e decidindo por conta própria que quer que o mundo inteiro vá a putaqueospariu que a gente PROMETE E JURA que não quer saber mais dessa porra toda, cai no meio de um tomate o raio do cavalo branco que a gente não viu. Porque tava tudo acertado com a nossa cabeça. Mas esqueceram de avisar o coração. E o desgraçado enxerga, na maior sem-cerimônia o dito cujo. E lá vamos nós de novo. É foda. Mas é bom pra cacete.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 03/05/2006
Código do texto: T149755

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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