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(imagem de Marco Fernandes)

IRONIA DO DESTINO
 

     Sempre achara que as pessoas de quem gostava iam embora quando ela mais tinha se empenhado em dar-lhes amor. Algumas iam embora sem ir. Ficavam, mas era o mesmo que não. Continuava fazendo o que sabia: dar-se sem muita precaução. Mas elas iam. Ainda que ficassem. E não compreendia. Empenhava-se em acordá-las e fazê-las voltar. Esforço inútil: não voltavam e ainda não lhe notavam a presença. Começou a crer que havia algum defeito de fabricação e pensou até em perguntar algo à fábrica. Inútil: a fábrica era muito antiga e não tinha manuais disponíveis para clarear a situação. 
     Defeituosa, como se acreditava, tentou remendar as coisas. “Te aquieta num canto que isso passa”. Ledo engano. A máquina defeituosa sempre continuava a amar errado e todo mundo ia embora. Muita análise e pouco tempo pra pensar. Muita baixa estima e complexo de “subnitrato do pó de merda do cavalo do bandido”. “Volta e aprende tudo de novo, sua mané”. Não tinha remédio. Trocou de analista, trocou de remédio, trocou de amor. De novo, foi-se mais um. Deve ser aquela história de “o primeiro me chegou,...., o segundo me chegou..”. Coisas de Terezinha. Fim da música ela já sabia: Terezinha ia cantar e contar sozinha. Paciência. Se essa for a sina. 
     Descobriu depois, sem analista e no espelho, que ninguém ia embora. Quem mandava embora era ela. Um tinha unha encravada, o outro pouco cabelo, e outro, cabelo demais. E havia o sabotador. Ele apontava um mínimo alfinete e adeus amores. Sabotou o mundo até descobrir que ela não tinha uma máquina defeituosa e que o sabotador nem era tão sabotador assim. Eles, os amores, é que não sabiam amar como ela. Defeito de fabricação? Não. Ironia do destino.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/05/2006
Código do texto: T150909

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai