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Reminiscências



É madrugada, madrugada de domingo.As primeiras horas da manhã já se insinuam trazendo a claridade que dissipa as sombras da noite.
Sozinha em meu escritório, deixo meu coração pulsar a vontade... Um pouco agitado pelas lembranças, enquanto assiste as cenas que a memória me traz...
Cenas que remontam o tempo de minha infância. Dia das mães, vovô, vovó, nós seis irmãos coroando a mãezinha no jardim da chácara Santo Antônio das Graças!
Ah!...Quanta inocência, quanto carinho... Amor em abundância na sua forma natural... As pétalas de rosa, íamos jogando enquanto ela, sorridente, caminhava a trilha demarcada antecipadamente, que a levaria para seu trono...
Quase sinto o cheiro das rosas...E posso divisar o semblante da vovó quando via suas roseiras assaltadas por nós ... Só não interferia porque concordava com o motivo desta aparente insubordinação.
Logo um de nós vinha com a coroa, o manto e a faixa...Tudo feito com papel e carinho, alegria e expectativa...
Havia um presente, que foi providenciado por vovô. Um quadrinho, singelo com moldura dourada. Nele estava escrito:
- "Mãezinha, mundos de outro não valem o teu coração"
Não posso deter as lágrimas que vão percorrendo meu rosto...traçando uma trilha onde a saudade escorre livremente. A cena permanece viva em minha lembrança. Os sorrisos, a emoção, o carinho, o sentimento vivo de majestosa solenidade, em que víamos a mãezinha tomar posse do lugar que lhe era devido.
Naquele tempo acreditava em fadas, ilha encantada, mágica, encantamento... E a felicidade que morava em nosso lar dava indicação de que iria nos acompanhar para todo o sempre...
Ao terminarmos de coroá-la, vovó e vovô se colocaram como platéia, e iniciamos as apresentações... Não faltaram versos, músicas e um coral improvisado para encerrar este show inusitado.
Meus irmãos, como eu, sorriam felizes, misturando nossa alegria a da mãezinha e a de nossos avós... Recordo-me de ver vovô chorando e naquele momento não entendi porque ele o fazia....
Interessante o que faz o tempo... Hoje, penso que choro pela mesma emoção que o fez chorar naquele dia...
Tantos anos se passaram...Tantas coisas nós vivemos...Vovô, vovó, mãezinha já deixaram este caminho para trilharem a jornada da eternidade...bem como minha irmã caçula.
Assim, vejo meu escritório povoado de personagens que fazem parte de minha história, que participaram do enredo de minha vida e que me fazem companhia nesta madrugada fria, em que me sinto tão frágil, capturada pela saudade enorme de minha mãezinha.
Não há tristeza, apenas o latejar da vontade de rever a feição amada... Hoje é dia das mães....E sua presença me é inacessível...
Deixo que o pranto lave meu coração preparando-o para recomeçar amanhã...E no silencio desta madrugada assisto minha gratidão, carinho e amor por esta mulher tão especial ir impregnando meu lar, espalhando-se de modo a alcançar a janela e dirigir-se para o firmamento em busca de seu coração.
Com sua lembrança me recolho...e vou me deitar... Amanhã a vida continua e o sonho, o sonho se perpetua.




Priscila de Loureiro Coelho
Enviado por Priscila de Loureiro Coelho em 15/05/2006
Código do texto: T156645
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Sobre a autora
Priscila de Loureiro Coelho
Jacareí - São Paulo - Brasil, 65 anos
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Priscila de Loureiro Coelho