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A Guardiã dos Sonhos

As minhas palavras pouco são e nada valem, são suspiros que o vento leva para longe e que ficam esquecidos numa folha de papel. Mas talvez um dia, como quem recupera o passado, estas palavras se tornem a recordação mais bela de tudo aquilo que o ser humano é capaz de sentir e manifestar. Porque a beleza é mais do que aparência, é essência, é respeito é a certeza de que aquilo que nasce puro e perfeito a velhice não apaga e permanece igual a si próprio pela eternidade.




Ela tinha um sonho que não era de brincar
Poderia provocar o riso ou a censura
Um sopro da imensa intensidade com que vivia
A chama que brilhava no fundo dos seus olhos

Ela acredita nas pessoas como ninguém
Era capaz de entregar a alma e o coração
Numa espera sem fim e agonizante
Na dedicação absorvente de um Amor

Ela não via o mundo como ele era
Talvez porque sonhar fosse a sua defesa
Para quebrar a barreira daqueles que lhe fugiam
E que se esqueciam de como o seu coração sofria

Ela tinha uma história que era sua...
O drama de uma paixão que ela pintou
Com luares e mil cores que eram sopros
Suspiros que ela desabafava por fim aqui

Ela escreveu um romance que começava assim....

Existiam dores e caminhos seculares, tristezas esbatidas no olhar cinzento de alguém que queria voar, que um dia a paixão devastou, algures num tempo que amanhece com dor, mas que se transforma em luz quando o sol nos seduz e nos aquece o coração. Num mundo marcado pela guerra e a luta, pelo egoísmo e pela dor de quem não sabe o que quer, ou pela amargura de quem não tem o que sabe sempre ter desejado ela era a guardiã dos sonhos.
Não acreditava em paraísos encantados ou em seres sobrenaturais, apenas tinha certeza de que só as asas de um anjo a levariam ao céu, que só a mestria de um ser divino a roubaria das falsas pretensões que o mundo a fazia padecer.
Ela perdeu-se numa história que começou nos fins de tarde de Inverno, quando abandonava um sonho para se dedicar a outro que lhe preenchia a alma e lhe enternecia o olhar. Contava os minutos entre as mensagens que lhe roubavam o ar, que lhe faziam companhia, que a enchiam de alegria que eram aquilo que a fazia sorrir quando a distância teimava em insistir. Quando o sol se punha ela pegava na chave do carro e com o coração a bater de alegria ela seguia em busca daquilo que o peito já não calava, mas antes cantava em forma de versos de amor. Ela fugia de mansinho, no segredo e pela calada tinha de fingir que não ia, tinha de esconder que não sentia, mas ela só queria do lá de cá ou do lado de lá ir ter com a sua Paz. E assim foi vivendo num misto incompreensível de afectos, insegura, mas ainda assim crente porque os olhos lhe transmitiam o tudo que ela queria, porque as palavras que lhe diziam tinham a esperança de que o que existia não era magia, porque no fundo do seu ser ela queria que um dia a história evoluísse e ela não tivesse de fugir pela calada, escondida, fingida e amargurada. Entre gritos de revoltada e suspiros de Amor ela foi-se envolvendo numa história da qual ficou prisioneira, da qual alimentou as mais doces ilusões de felicidade e entrega, que ela achava que eram partilhadas e mais do que isso sonhadas a dois.
Ela que era a guardiã de sonhos....
O tempo foi passando e tudo parecia ficar na mesma, o gosto de Ti sabia a pouco e parecia que de nada servia para pôr fim a algo que impulsionaria o nascer de algo tão desejado. Até que um dia algo mudou, alguém optou por tomar uma decisão e ela pensou que tinha chegado a hora de gritar ao Mundo tudo aquilo que o seu coração sentia. Ela resplandeceu sem esquecer a tristeza do próximo e sem deixar de se preocupar com a dor alheia.
Mais uma vez ela acreditou que a Felicidade seria sua ...
A seguir veio a distância, a ausência, a saudade, a imperfeita sensação de abandono. Incompreendida ela fechou-se num mar de agonias e revoltas, de tristezas e de magoas que ela não sabia explicar que ela só conseguia sentir na profusão difusa dos seus sentimentos tão profundos e puros. Ela só sabia que amava, como quem sente o calor do sol na pele e a labareda a consumir o peito, como quem respira num ambiente sufocado e precisa do ar puro que só outra alma pode oferecer, como quem se enternece ao contemplar um pôr-do-sol que um dia foi porto seguro, abraço fraterno e partilhado nos braços de alguém. Ela não tinha nada mais do que a sua força e o seu coração, mas tudo isso lhe bastava para sobreviver e para ir seguindo, silenciando o tanto que sentia.
Deixou que o rio a dividi-se em dois, permitiu que em margens opostas ficassem ela e o seu Amor só porque imaginava que um dia o rio secaria e então eles se encontrariam sob o olhar celestial vindo do céu. Olhava os seus olhos como quem observava o que o destino lhe reserva tal qual borras de café de uma chávena da cultura muçulmana, tentando entender no castanho dourado da sua íris a luz para guiar os seus passos. Ela sofria com o silêncio e com os mutismos, esperava que um dia ele a abraçasse e lhe dissesse somente aquilo que era queria ouvir.
Mas ela era a guardiã dos sonhos e por isso não quis deixar de acreditar e continuou a sonhar.
Um dia a distância diminui e eles voltaram a encontrar-se, pareciam dois astros em órbitas diferentes, mas ainda assim a força cósmica fez com que as suas rotas de novo se interceptassem. Ela rejubilou de alegria e a sua vida ficou iluminada pelo brilho resplandecente do Sol que era a sua fonte de calor. Entregou-se ao abraço, ao beijo, à partilha de emoções e sensações, envolveu-se numa dança que lhe desorientava os sentidos e que a levava para lá da imensidão num ritual de amor e paixão que as palavras não têm o condão de conseguir descrever. Por Amor, sempre pela nobreza desse tão grandioso sentimento ela sentiu o chão se perder, ela sentiu o corpo levitar e as amarguras desfazerem-se, porque percebeu que o sonho afinal podia ser real, que o conto de fadas existia para além da sua imaginação, que a vida podia ser a sua ilusão mais querida se aqueles momentos se multiplicassem e se ela sempre o encontrasse ali ao lado, para partilhar a alegria de se sentir apaixonada.
Ela desejou tanto, com tanta intensidade e fervor que se deixou derreter nos momentos e nos espaços, que se sentiu inserida e querida num mundo que afinal não era seu, que lho tinham concedido de fugida porque afinal de contas tudo aquilo que ela tinha era de continuar a fingir como outrora. Ele não conseguia...
Estas palavras vieram em forma de bombas que se cravaram no peito, uma lança afiada e certeira no seu coração tão cheio de esperanças e partilhas. Ela ouviu e naufragou nas suas lágrimas, sufocou com a dor que sentiu no seu peito, com a tristeza que os seus olhos não conseguiam negar, com os gemidos que eram a expressão mais pura do seu sofrimento e da sua desilusão. Ela que só o queria amar refugiou o rosto nas asas de um anjo que não tinha nome, nem existência, ela era uma caravela perdida nas suas próprias águas e que não tinha para onde ir.
Agora ele não mandava as mensagens que lhe enviava outrora e que lhe marcavam os dias com o seu carinho, que tornavam a sua presença uma constante na vida dela. Ele já não fugia com ela para nenhum sitio nem lá nem cá, mas ainda assim eles viam-se e até mais vezes ou mais tempo, mas ela sentia que a intensidade que lhe queria dedicar não podia ser realidade porque havia sempre muitos olhos a tomar conta, muita gente para ver e para não entender aquilo que ela sentia.
Ela percebeu que nem ele sabia o que ela sentia....
Que ele não compreendia o quanto o seu coração lhe doía e o quanto precisava ouvir as coisas bonitas que o faziam respirar, ele nem imaginava como o dia podia ficar mais bonito quando o amor lhe aparecia ou lhe dizia para aparecer, ele jamais entendia que aquilo que ela sentia não era algo que vem e vai e que termina num leito onde se afogam prazeres, ele jamais soube que aquilo que ela sentia era AMOR e que isso era partilha, presença, sinceridade, confidência, companheirismo, amizade, carinho, ternura, prazer, afecto.
E ela não sabia porquê...Talvez porque ele nunca tivesse amado de verdade. Só sei que ela acreditou como guardiã dos sonhos que um dia conseguiria ensiná-lo, teceu a ilusão de que com toda a sua dedicação e ternura ele acabaria por perceber que os pequenos gestos de ternura são a mais plena sensação de doçura, que amar é mais do que receber é também dar, somente porque se deseja, porque se quer.
Viver só tem mais cor e mais luz quando se acorda e se sabe que existe alguém que nos ama e que estará ali ao nosso lado para nos agarrar a mão, para no final do dia ouvir as nossas histórias de alegria ou de lamento, para partilhar a nossa existência, para nos abraçar e curar as nossas tristezas. Tudo se torna mais fácil quando existe alguém que nos empresta um sorriso quando as nossas lágrimas escorrem e é por essa razão que agora eu gostava que o meu príncipe estivesse ao meu lado, me pegasse na mão, me embalasse e me disesse que o tanto que escorre pelo meu rosto não são sonhos perdidos, mas antes a alegria da sua concretização.
Mas eu só tenho o silêncio por companhia e ele é incapaz de me dizer que eu tenho de continuar a ser a guardiã dos sonhos, ele não me devolve o Amor e ele não te traz até mim como eu tanto queria.

Quando terminou de escrever estava exausta
Tinha esvaziado para o papel parte do seu todo
Fragmentos de Amor em sintonia com a alma
Tinha desenhado os seus sonhos na escrita

Disse que a força dos sentimentos
Iria levar até Ele o tanto que lhe tinha escrito
Sabia que só receberia silêncio
Mas ela tinha de dizer aquilo que sentia

Perdida e triste lançou-se ao vento
Embrulhou em beijos e afectos as palavras
Abraçou-as em doces momentos
E enviou-se em cada letra de Amor
Sonya
Enviado por Sonya em 31/05/2006
Reeditado em 04/08/2006
Código do texto: T166723
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Sobre a autora
Sonya
Portugal, 34 anos
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Sonya