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(imagem: Estrada para An-Yuan , de Wang Xingwei)

SEM AVISO PRÉVIO
(Brasília, 10/02/2006)


     É uma pena que as coisas que gostamos, as pessoas que queremos, a vida que estamos sorvendo,se vão assim, sem aviso. Que fossem um pouco mais como as tempestades, que se anunciam por um céu subitamente escuro ou uma trovoada como arauto. Mas não: elas simplesmente se vão. Se ao menos anunciassem a partida, eu certamente encontraria um meio de fazê-las permanecer um tanto mais, quem sabe com um cafezinho de despedida ( ou de pretexto), uma comidinha nova para que vissem que cabem no espaço da minha cozinha interna. Sim, na cozinha, porque sala de visitas é isso: sala para visitas. A cozinha não: é onde se conversa o fundamental com pessoas fundamentais.
     Lamentavelmente, as coisas e pessoas que faziam algum bem se foram e não avisaram. Sem o cafezinho ou a comida feita no capricho e  uma boa conversa de cozinha.Lamentavelmente, deve ser algum defeito de fabricação. De alguma forma, eu mando as coisas pra longe. Antes que cheguem perto ou, numa espécie de contradição (que contradição e incoerência é uma especialidade minha) quando chegam perto demais, desando a fazer perguntas que ninguém gosta de responder ou vou botando logo a cerca necessária (de arame farpado sempre) de tal maneira que as coisas e pessoas se vão. Sem tempo pra nada. Sem aviso e quase sempre, sem despedida.
     A parte do sem despedida não é de todo má, considerando que sou péssima em despedidas. Mas é uma pena que se vão. Quem sabe se eu mudasse o esquema, quem sabe eu fizesse um último poema escancarando ainda mais o que não está exposto suficiente ou, ao contrário, acobertando o que não deve ser visto...Quem sabe?
     Eu, pessoalmente não sei. Coisas que tive e gostava se foram. Pessoas se foram. Todas, sem aviso ou pelo menos, sem algum que eu pudesse compreender. Meu filho se foi, e neste caso, embora tudo avisasse de sua partida, acreditei até o último minuto que ele ficaria. Numa espécie de ironia ou maldade da vida, ele é o único que jamais me deixará. Continuaremos a tomar nosso cafezinho e continuarei a lhe dar o carinho que não pude até o último minuto da minha vida.
     As outras coisas e pessoas, não voltarão ou ficarão mais tempo. Não gosto de passado e não sou o tipo de pessoa que guarda ad eternum sinais do que foi vivido e já acabou, por melhor que seja. Gosto de portas fechadas a chave, que procuro jogar fora pra não abrir mais. Mesmo assim, lamento que as coisas e as pessoas não mandem aviso prévio ao sair. Eu teria pelo menos a chance de fechar adequadamente as portas de imediato e não lamentar o que não foi feito ou o que foi feito errado. Eu teria a chance de dizer: "Vá e descanse. Em paz."
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/06/2006
Reeditado em 04/06/2006
Código do texto: T169201

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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