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(imagem: Lágrima, de X. Maya- www.thousandimages.com)

APRENDER A (COM) SENTIR 

     Em  lugar algum de minha casa  encontrei o sentir. Aquele que rasga a pele e faz nesgas e dobraduras com as nossas lágrimas e sutura nossas peles sem anestesia como quem bordasse uma toalha branca em pontos de cruz vermelho-fogo. 
     
     Isso foi há tempos que não sei contar. De tanto me inconformar com meu conformismo diante do nada sentido, caí nas valas equivocadas e cavadas pelas sensações. Descobri então, esta vala num corredor qualquer de minha casa em que julguei morar minha alma. Não, de novo, não. 

     Ali morou meu abrir asas pensando ser livre, minha entrega pensando ser compreendida e bem vinda e uma pequena espiadela pra fora do buraco com os olhos de minha atemorizada menina de colégio. Mas não era naquele corredor nem naquela vala funda que morava o meu intenso tão buscado. 

     De intenso, descobri ali apenas quanto se pode doer sem aviso e sem anestesia, quanto se pode doar sem que compreendam porque a gente faz isso assim, sem esperas; com quanto de angústia pode nos arrasar o apego. 

     Eu, que me inconformava de não encontrar em minha casa o sentir, descobri que teria que domesticar sentimentos se quisesse ficar de pé. Talvez meio morta, mas de pé. 

     Caminhei outro tanto por minha casa em outras terras, diferentes das anteriores (pensava eu) para descobrir na sala de visitas um sentir sorridente que agora (de novo eu pensava) devia ser aquele que cantam nos poemas: o intenso, a verdade, a alegria. 
     
     Não estava de todo equivocada, mas era um sentir que ainda não aprendera o suficiente sobre a dor e portanto, jamais entenderia meus sentimentos domesticados e meu senso prático, minha realidade em cores tão vivas permeadas de luz e sombra.
 
     Tantas andanças me ensinaram que não é possível ignorar a dor, anestesiá-la com belas palavras e fingir que ela não existe. A dor ensina e é uma professora como poucas: ou se aprende ou se aprende. 

     Descobri, então, pela intensidade da dor qual era o meu real tamanho. Não o tamanho da dor, não o tamanho do sentir alheio que capturei como meus fossem, mas o meu sentir , sem amarras, sem angústias. Um sentir de eu para mim mesma, libertador e sereno. 

     Alguém dirá que isso é morno ou sem graça e eu direi: te amas tão pouco que me causa tristeza...
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 08/06/2006
Código do texto: T171746

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
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Débora Denadai

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