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O Senhor das Roças

Conta a história que num reino longínquo, numa casa de roça, encravada bem no alto de uma enorme montanha, morava um rei, chamado por seus súditos de "Senhor das Roças".

Os antigos não sabiam contar maiores detalhes sobre a história do Senhor das Roças, porque ele era muito misterioso, mas sabe-se que o rei tinha a sua rainha.

Mas era só o que se sabia, além de que o rei passava o seu tempo escrevendo histórias para divertir e fazer pensar as pessoas.

Comenta-se, que como sua montanha era muito alta e quase alcançava o céu, o passatempo predileto do Senhor das Roças, quando não estava escrevendo, era caçar estrelas. Ele ficava lá, no alto da montanha espiando as estrelas que passavam no céu, e quando via uma com brilho que lhe agradava, dizem que o rei a pegava com a mão e a prendia para sempre dentro de uma das histórias que escrevia.

Dizia o rei, que fazia isso para eternizar o brilho daquela estrela e mantê-la sempre viva. Ele também armava inúmeras armadilhas no meio da floresta para caçar as estrelas que passavam, quando ele não estava de olho no céu. Dessa maneira, se aparecia uma estrela sem que ele soubesse, essas armadilhas de pronto funcionavam e prendiam a descuidada até o rei aparecer e verificar se a mantinha presa ou a libertava.

Para isso ele contava com a ajuda de todos os animais que viviam com ele, como gatos, aranhas, cães e até das flores que lá nasciam e cresciam.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, num reino muito distante, morava uma estrelinha chamada Mar.

Essa estrela era muito medrosa, tinha medo de sair de sua terra e ir para lugares de que nunca ouvira falar. Só saia do seu cantinho para andar as trilhas que outros já tinham trilhado e que sabia, eram seguras, e não trariam perigo para sua tranqüila vidinha de estrela.

Mas, a estrela Mar sempre era incentivada por suas estrelas-parentes à conhecer novos lugares em seus passeios. E certo dia, decidiu seguir esses conselhos e se  aventurar pelo desconhecido.

Já no seu primeiro passeio avistou um caminho diferente e este chamou sua atenção.

Não sabia Mar, que esse caminho era uma das armadilhas que o Senhor das Roças tinha colocado para justamente pegar estrelas curiosas como ela.

E assim, tão descuidada e sem noção do perigo, logo em seu primeiro passeio pelo desconhecido, acabou caindo numa das armadilhas do Senhor das Roças.

Era a conhecida armadilha do "gato em cima de um telhado".

Apaixonada por gatos e cães, ao avistar o lindo gatinho, não teve dúvidas. Avançou para o desconhecido atrás do gato.

E foi parar nas garras do rei que logo a prendeu para colocar dentro de uma de suas histórias. E além de prendê-la para sempre, o rei deu a ela 7 deveres dificílimos à cumprir. Esses deveres estavam escritas e se chamavam: Os 7 Deveres de Mar.

Contam que ela tentou fugir várias vezes daquele lugar, mas que até hoje ainda não conseguiu. E por isso de vez em quando, ouvimos uma canção que Mar canta para tentar convencer o rei de que ele se enganou ao prendê-la nas suas histórias :

- “oh, poderoso Senhor das Roças,
o senhor um erro cometeu,
ao prender uma estrela,
que por acaso sou eu;
 
cometeste terrível engano,
ao pensar me conhecer,
sou apenas um vaga-lume,
com minha luz a acender;
 
só pareço uma estrela,
o senhor precisa saber”!

E todas as noites Mar cantava sua canção. Além dessa, Mar cantava canções para as flores, para a floresta e os animais que viviam lá na terra de roças. E também nas horas do dia Mar cantava suas canções.

Mal sabia ela, que ao invés de se convencer a deixá-la ir, o rei gostava mais e mais de ouvir Mar cantar. E porque amava suas canções é que não deixava Mar escapar.

Dizem que ele tinha compaixão de Mar, mas não conseguia deixá-la partir.

Ele também não sabia porque gostava tanto de ouvir o que Mar cantava, e por isso,  ficava confuso, com tantas perguntas sem respostas que ele mesmo se fazia. E nesta confusão ficava sem saber o que o fazer.

E assim, o rei, igual a um bom rei, ficou surpreso com tudo aquilo. E precisou meditar. E todo rei, quando pensa, não pensa sozinho.

E assim ele chamou 7  conselheiros e contou a eles tudo o que estava acontecendo.

Os 7 conselheiros pediram ao rei dois anos para pensar. Disseram que era muito difícil dar um conselho ao rei sem conhecer bem a história. E eles também queriam conhecer a estrela Mar. Precisavam saber quem e como ela era, para só então aconselhar o rei.

O povo achava meio estranho que o rei procurasse ajuda nos conselheiros. Eles achavam que o rei era muito poderoso, tinha autoridade e era muito sábio. Mas o povo estava enganado. O rei tinha medo de tomar uma decisão sobre Mar. Ele se sentia sozinho e mesmo com toda sua sabedoria não sabia o que fazer naquele momento.

Vocês sabiam que esta história de os reis serem poderosos e tomarem todas as decisões no reino não é bem verdade? Os reis quanto mais poderosos são, mais  sós se tornam. E por isso, o bom rei, o Senhor das Roças, em sua solidão, tem que consultar 7 conselheiros, porque ele não sabe tomar decisões sozinho, porque quanto maior seu reino, maiores são suas montanhas, mais se formam nichos de gatos. Mais se travam batalhas e ele não sabe sobreviver nem com os pequenos Fios de Ouro que as fadas lhe mandam para guardar sua angústia. Vocês sabiam que um rei não pode nem comprar uma Esmeralda sem que consulte alguém?

Por isso o Senhor das Roças consultou 7 conselheiros. Eles pediram dois anos para pensar sobre o dificílimo caso.
E passados dois anos os 7 conselheiros retornaram ao rei e cada um disse o que pensava a respeito dessa história e o que achavam que o rei devia fazer.

O Primeiro Conselho:

O primeiro conselheiro abriu seu livro onde tinha escrito durante os dois anos tudo o que tinha visto, ouvido e o que pensava sobre cada coisa. Contou algumas coisas que o rei não sabia ainda e depois leu com voz solene seu conselho para o rei:
     
"Diante de toda a história que se apresentou, depois de muito pensar e estudar sobre o assunto, cheguei a conclusão de que o rei não deve deixar a estrela Mar sair de seu reino. Este é o meu conselho ao rei. Mas, com uma ressalva: O rei nunca deverá se aproximar da estrela Mar mais de três quartos de passos para não ser queimado pelo Fogo que Mar solta pelas pontas de sua estrela. Descobri que a estrela é geniosa".

O rei agradeceu o conselho do primeiro conselheiro e disse já ter dado tempo de conhecer o gênio terrível da estrela, mas que iria se prevenir para nunca chegar tão perto de Mar para não se queimar.

O Segundo Conselho:

Então veio o segundo conselheiro que também trouxe junto com ele uma enorme caixa cheia de folhas amarelas repletas de anotações. Ele abriu a caixa na frente do rei e começou a ler o seu conteúdo ao rei.

"Oh, rei, Senhor das Roças, pesquisei a história e fiz descobertas. Fui além do que o rei tinha me pedido. Procurei no passado alguma explicação para tudo o que estava acontecendo. Pensei que talvez pudesse encontrar alguma coisa que explicasse por que o rei não queria libertar a estrela Mar. Então descobri que na história do rei existiam muitas outras estrelas como ela. E descobri que o rei gostava demais de estrelas e por isso vive armando armadilhas para prendê-las em suas histórias".

Até ali o segundo conselheiro não tinha apresentado muitas novidades. Todas essas o rei e o povo já sabiam desde o início desta história. Então o rei já começou a ficar nervoso. Não é que o rei também era meio genioso?
     
Assim o segundo conselheiro foi obrigado a dar rapidamente o seu conselho:
     
"Diante do acima exposto, e visto ser conselheiro do rei e não da estrela Mar, e descoberto que o rei gosta muito de estrelas, aconselho o rei a não libertar a estrela, mas a mantê-la eternamente presa em suas histórias, com uma ressalva: Descobri que a estrela é dengosa e teimosa. Por isso sugiro ao rei nas histórias que escrever e que Mar fará parte, cuidar muito com o que escreve. E que o rei não invente de teimar com Mar, ou desafiá-la, porque estrela mais geniosa e dengosa como essa não existe. É um perigo. E como o primeiro conselheiro já disse, a estrela Mar, solta fogo pelas pontas de estrela. Nunca vi isso! E esse fogo pode consumir o rei para sempre".

O rei já estava feliz com os dois conselhos que tinha recebido.
     
Os conselhos foram ao encontro de sua vontade. E que a estrela era geniosa e dengosa ele já sabia. As birras que ela fazia cada vez que se encontravam eram de matar. Mas com isso ele já estava aprendendo a lidar.
     
Mas a estrela Mar que já tinha ouvido falar dos conselhos dos conselheiros ao rei, estava triste e abatida.  E tentava demonstrar isso através de suas canções. O rei ouvia suas tristes canções mas não amolecia o coração.

O Terceiro Conselho:
 
Então o rei chamou o terceiro conselheiro. Este veio com um rolo de papel bem grosso. Conforme ia falando ia abrindo o tal rolo diante do rei. E lá estava escrito o decreto do terceiro conselheiro:
     
"Inigualável rei e Senhor das Roças, verifiquei os fatos e concluí: O rei ama as canções que Mar canta. Isso é fato concreto. E é motivo da não liberdade da estrela. Descobri em minha investigação que a estrela é muito bondosa e sabe compartilhar sua luz. Por isso minha proposta, para ambas as partes ficarem satisfeitas é: Devolva a estrela ao céu ao qual ela pertence mas faça um acordo. Ela compartilha de seu brilho para o senhor colocar nas suas histórias e deve cantar canções de forma que o senhor possa ouvir. Sem mais nada a dizer. Assina: Conselheiro Terceiro".
     
A idéia até que era interessante para o rei mas só em pensar em deixar Mar ir, ele logo procurou tirá-la da cabeça.

O Quarto Conselho:
     
Após repousar por uns dias para descansar, pois o processo de ficar e partir de Mar o levava à exaustão, para agonia de Mar, o rei chamou o quarto conselheiro. Este chegou cheio de aparelhos e blocos de anotação. E foi logo dizendo:
     
"Poderoso rei, esquadrinhei cada centímetro da vida de Mar. Descobri do que ela é constituída. Ela é feita de barro. Mesmo que ninguém acredite, é essa a sua essência. Feita a descoberta, fiz comparações do barro do qual a estrela é formada com o barro da montanha onde o rei descansa os pés todos os dias. Averigüei partículas semelhantes entre as duas amostras. Pesquisei desde a pré-história de Mar e da montanha e concluí: São feitas da mesma matéria.

Porém, descobri durante a pesquisa que enquanto a montanha permanece igual desde sua criação, firme e inabalável, as moléculas de Mar foram se transformando até que ela se transmutou numa estrela reluzente. Apesar de seu brilho, como o conselheiro terceiro já falou, averigüei que Mar acumulou ao longo do tempo, e por vagar constantemente por entre os astros, a terra e o céu, partículas diferentes de outros barros e que essas agora fazem parte de sua matéria.

As conclusões da pesquisa demonstraram que Mar tem mais constituição de estrela e mais partículas do céu e do firmamento onde habita do que da terra de que foi formada. Por isso meu conselho para o Senhor das Roças é: Se quiser manter Mar sob sua custódia deverá primeiro pensar em sua existência de estrela. Se o rei decidir por mantê-la em seu território deveria construir um espaço especial e próprio para uma estrela habitar. Uma Casa Estelar, Espaço de Luzes, nuvens e onde a estrela possa tocar o céu a hora que quiser".
     
O rei achou meio confuso esse conselho. Afinal o conselheiro não deu bem um conselho, pelo contrário, jogou outra vez a decisão para as mãos do rei.

Nesse dia o rei foi verificar o placar de conselhos. E feliz verificou que dois conselheiros aconselharam que ele não deixasse Mar sair, um dizia que ele deveria deixar Mar partir e o terceiro ficou em cima do muro. Não deu conselho nenhum.

O Quinto Conselho:
     
Após o período de descanso e tendo o rei já se recuperado totalmente do cansaço foi chamado o quinto conselheiro para falar ao rei. Este chegou trazendo na mão miniaturas de estrelas, e outros astros do céu. Colocando tudo diante do rei disse:
     
"Senhor das Roças e rei da montanha, trago meu conselho referente a situação da estrela Mar: Senti que a estrela é meiga e doce além de bem família. Percebi tudo isso que os outros conselheiros falaram mas também que da vida de estrela de Mar fazem parte outras estrelas. Peço ao rei que contemple os exemplos de vida de estrela que coloquei a sua frente, veja que são iguais a Mar. Analise com seu coração. Coloque-se em lugar de Mar e de suas estrelas-parentes. Seria justo mantê-la presa aqui? E como ficariam as estrelas que fazem parte da vida de Mar? Imagina como iriam sofrer. Diante de tudo isso, peço a clemência do rei e que o rei apele para a bondade de seu coração libertando a estrela Mar".
     
Antes mesmo do quinto conselheiro terminar seu conselho, o rei e todos os súditos que se encontravam ao redor, estavam mergulhados em lágrimas. O rei mesmo não conseguia parar de chorar. Um choro pesado, doído, sofrido, choro chorado.
     
E agora ? O que fazer?
     
E com o coração pequenininho o rei decidiu que não tinha mais condições de continuar com o processo de liberdade ou não de Mar naquele dia. Cancelou todas as apresentações restantes e decidiu recolher-se aos seus aposentos reais para pensar sobre o assunto.
   
Passaram-se muitos dias e nem sinal do rei. Os súditos já estavam todos preocupados com o sumiço real. E se o Senhor da Roças estivesse doente e ninguém tinha contado? Todos se perguntavam o que será que tinha acontecido. Então alguém pensou que talvez o rei estivesse triste com toda a história que estava acontecendo.
     
Queria deixar Mar ir, mas também não queria. Foram à procura do rei e o encontraram realmente pensativo e cheio de dúvidas. Falou que tinha pensado muito e que estava querendo libertar Mar. Mas que gostaria de ouvir uma última canção.
     
Então decidiram chamar Mar para cantar uma canção ao rei e assim o rei se animar outra vez. Mas, quando o rei ouviu a voz de Mar, ficou encantado novamente e já não queria mais que Mar fosse libertada. Levantou-se e anunciou que nada havia mudado e que o processo de ouvir os conselheiros iria continuar.
     
E assim por decreto do rei, Senhor das Roças, deu-se continuidade ao processo de ouvidoria dos conselheiros da terra das roças.

O Sexto Conselho:
     
Chegou o sexto conselheiro. Ele trouxe na mão um pequeno álbum. Disse se tratar de um álbum de fotografias. Todos estavam curiosos com o tal álbum. O conselheiro abriu o álbum na frente do rei e começou a folheá-lo.
     
As fotos foram mostradas uma a uma. Eram fotos verídicas. Mostravam que Mar tinha entrado na terra das roças de forma clandestina. E que percorreu naquele dia algumas trilhas. Deixou vários rastros de fogo por onde passou. As provas estavam ali. Mar andou pelas montanhas, pelas ruas da vila e encantada com a nova terra, demorou-se por lá.
     
Então mostraram a foto do gato no telhado. Essa era armadilha em que Mar caiu ao percorrer as trilhas da terra das roças. Ali nos fios do pêlo do gato tinha ficado enroscada. O gato era da mesma cor dourada da estrela. Então todos concluíram que Mar achou que os fios dourados do gato eram seus cabelos e por isso acabou caindo naquela armadilha ao tentar puxar um dos fios.
     
O conselheiro provou por A mais B, que a armadilha se encontrava dentro do território do rei. E que Mar tinha entrado lá sem passaporte, sem licença. Ou seja de forma clandestina.
     
Ninguém ousou discordar das colocações do sexto conselheiro. Nem mesmo Mar podia argumentar sobre o fato de ser uma clandestina na terra das roças. E o sexto conselheiro ainda disse que isso aconteceu porque Mar era curiosa.
     
Então o conselheiro perguntou ao rei:
     
- "Oh, rei, Senhor das Roças, pergunto ao poderoso e justo rei: Invadir propriedade alheia sem licença, de forma clandestina não é considerado crime?"
     
Tanto o rei como todos os súditos confirmaram que isso era um crime muito grande na terra das roças. Houve um burburinho. Todos falavam ao mesmo tempo. O rei pediu silêncio e ordenou ao sexto conselheiro que desse seu veredicto sobre a situação de Mar.
     
O conselheiro entregou ao rei seu veredicto por escrito e o rei o leu:
     
“Eu, conselheiro sexto, declaro a estrela Mar uma criminosa, uma clandestina e como tal, pelas leis da terra das roças, deve ser presa e castigada para o resto de sua vida. Condeno Mar a cantar suas canções para o rei, Senhor das Roças enquanto viver”.
     
Então o Senhor da Roças agradeceu ao sexto conselheiro e pediu que ele se retirasse.

O Sétimo Conselho:

Chamou então o sétimo conselheiro. Este era o último dos conselheiros do rei. Chegou majestoso em trajes especiais e com muitas flores nas mãos. E foi logo colocando suas suposições.
     
- “Senhor das Roças, nestes dois anos de investigação e nestes quatro meses de observação descobri pelas histórias que o rei escreveu no passado, antes ainda de conhecer a estrela Mar, pelas histórias que o rei escreve ainda hoje e onde já prendeu para sempre a estrelinha em várias delas, que a estrela Mar, é a estrela da vida do rei, Senhor das Roças. Percebi que no coração do rei existe além de muita admiração pelas canções de Mar, um amor imensurável pela estrelinha. E posso dizer que esse amor não é de hoje. Ele já nasceu muito antes do rei, Senhor das Roças, conhecer a estrelinha Mar. Vi que o próprio rei ainda não sabia disso. Mas que um dia descobriu e que tentou de várias maneiras falar de seu grande e profundo amor para a estrelinha Mar. Mas Mar muito ingênua, não conseguia perceber que era isso que o rei, Senhor das Roças, queria dizer. Diante do exposto acima e pensando no amor do rei, Senhor das Roças, sugiro ao rei que mantenha Mar em suas terras, entregue a ela todos os dias lindas flores como essas que trago nas mãos, construa uma linda casa estelar para ela, onde possa ir sempre que quiser para cantar ao rei e levar também sua família, sentir-se bem, querida e muito amada e Mar será eternamente feliz e grata ao rei, Senhor das Roças, enchendo seus dias de lindas e maravilhosas canções que alegrarão o coração do nobre rei”.

Houve um silêncio após o conselho do sétimo conselheiro.
     
Todos esperavam o que o rei iria falar. Ele permaneceu quieto. Não emitiu palavra alguma. Apontou o caminho da estrada para o conselheiro e retirou-se para seus aposentos reais.
     
Os súditos ficaram todos sem saber o que aconteceria agora. Mar surpresa e apreensiva não conseguia falar também.
Nunca imaginou uma coisa dessas.
     
O rei, Senhor das Roças tinha se apaixonado, não só por suas canções como ela imaginava até ali, mas também por ela.
Como podia isso? Um rei, Senhor das Roças se apaixonar por uma simples estrela? Não havia explicação.
     
Decidiram levar Mar dali, mas antes todos os súditos pediram que Mar ficasse  nas terra das roças e continuasse a cantar suas canções para que o rei ficasse sempre calmo e feliz. Mas mesmo que Mar dissesse que ficaria, a decisão ainda era do rei. Tinham de esperar sua decisão.
     
Mas o rei não se pronunciava.
     
E por fim todos os súditos se retiram dali.
     
Levaram Mar e a colocaram num jardim encantando à espera da decisão do rei. E Mar ficou sozinha.

Então, um dia, depois de muito tempo quieto, o rei a procurou.
     
Olharam um para o outro. Era a primeira vez que tanto o rei como Mar se viam assim tão de pertinho. Perceberam que tinha um grande sentimento de amizade entre os dois. Mas o rei sentia muito mais do que só amizade pela estrelinha.
     
E o rei disse a Mar que a amava. Mas que, para o bem de Mar e todas as suas estrelas-parentes, era melhor que ela fosse definitivamente embora da terra das roças e que nunca mais se vissem e nem cantassem suas canções e histórias um para o outro.
     
Essa era sua decisão definitiva.
     
Mar até concordava com o rei, mas não conseguia entender porque não podiam ser amigos. Mas acatou a decisão do Senhor da Roças e foi para o céu de estrelas onde morava.
     
Mas porque a estrela não concordava que não podiam ser pelo menos amigos, voltava todos os dias para cantar para o rei.
     
O rei até tentou ficar longe mas com o tempo não conseguia se afastar da estrela. Cada dia gostava mais de conversar com ela.
     
Diante disso, o rei mudou sua decisão e continuou a conversar com a estrelinha. Sempre com muito cuidado para não magoá-la e nem assustá-la com palavras que falassem de seu amor e de sua vontade quase insuportável de estar cada dia mais tempo com ela.

Os meses foram passando.
     
O rei, Senhor das Roças ajudou Mar a construir na terra das roças uma linda casinha estelar para Mar ficar quando vinha cantar para o rei. E todos os dias o rei ia lá ouvir suas canções.
     
Também escrevia lindas histórias para Mar. E nestas histórias sempre colocava Mar. Deu a Mar total liberdade de ir e vir em suas terras. Chegou a dar as chaves de uma de suas casas para que ela entrasse e mudasse tudo o que quisesse por lá. Mas Mar não mudou nada. Uma única vez Mar tentou mudar um dos cômodos da casa tirando uns móveis de lá, mas depois de pensar na bobagem que fizera, foi lá e colocou tudo de volta. Essa era a casa preferida de Mar. Lá estava toda a vida do rei. Seus animais, seus jardins. Ainda hoje é a casinha que Mar mais ama nas terras do rei, Senhor das Roças.
     
Mar podia viver feliz em seu céu e navegar entre suas estrelas-parentes e quando quisesse voltar para a terra das roças, as portas sempre estavam abertas.
     
O rei então pediu que Mar  voltasse todos os dias para sua casinha estelar e cantasse três canções para ele ouvir.
E Mar que gostava muito de cantar decidiu fazer isso só para agradar o rei. E ficava feliz que o rei ficava feliz.

E assim viviam Mar e o rei, Senhor das Roças, felizes com suas canções e histórias. Cada um vivendo sua vida, cada um com sua casa e jardins e mantendo uma linda e maravilhosa amizade, onde o rei, prezava e respeitava a vida de estrela de Mar e a estrelinha também respeitava muito a vida de rei do Senhor das Roças.
     
O rei dizia que ele e Mar tinham nascido para serem os dois melhores amigos do mundo. E Mar concordava com o que o rei dizia.

E o tempo foi passando. E lá se foram quatrocentos anos de uma maravilhosa amizade. Então, depois de tanto tempo como bons amigos, mesmo o rei sofrendo de amores por Mar, mas nunca exigindo dela mais do que respeito e amizade, algo aconteceu.
     
Tudo estava bem. Mar tinha ido para o céu de estrelas e lá ficou por cinqüenta anos. O rei sentiu saudades. Escreveu várias histórias onde colocou todo o seu sentimento de saudade. Uma de suas histórias, muito longa, se chamava: Volta logo Mar. Escreveu cartas para Mar dizendo que a estava esperando e que não via a hora dela voltar.
     
Mas algo aconteceu nestes cinqüenta anos em que Mar estava fora. Ninguém sabia o que, mas algo aconteceu.
     
E na sua volta, entre uma história e outra, entre uma canção e outra, a geniosa estrela, sem ninguém saber o motivo, armou maior confusão com o rei. Não foi uma briga porque tinham combinado após várias brigas que acontecesse o que acontecesse nunca mais iriam brigar. Mas armou a maior confusão. Foi surpresa geral. O rei se assustou. A própria estrela estava apavorada com suas reações diante do rei. O que estaria acontecendo?
     
Aconteceu uma mudança em Mar nos dias em que estava fora. E ela voltou decidida a contar ao rei. Chegou a tentar lá do céu das estrelas falar com ele, mas não foi possível.
     
Ela voltou de seu passeio e leu as histórias do rei, e gostou muito delas, leu as cartas do rei e chegou a responder algumas. Mas estava nervosa, não sabia o que fazer, precisava falar com o rei e não sabia como.
     
O rei não sabia disso e escreveu mais uma carta onde falava que estava triste com Mar. Estava triste porque tinha pedido sua ajuda para algo e ela tinha negado. E que agora ele fora obrigado a pedir esse favor a uma outra estrela. Mas o rei na verdade, sonhou que tinha pedido um favor a Mar e na realidade pediu outro.
     
Mas aí já era tarde demais. O gênio fogoso de Mar já tinha vindo à tona. Ela voava de um lado à outro, batendo suas afiadas pontas em todos que cruzassem seu caminho.
     
Ninguém conseguia entender.
Porque Mar estava assim?
Gritou, esperneou e magoou profundamente o rei.
     
O rei reconheceu seu erro, pediu perdão. Mar não escutou o pedido do rei de tão machucada que estava porque o rei a tinha acusado de negar um pedido dele, coisa que não tinha acontecido. Justo ela que sempre fazia de tudo para alegrar o rei e deixa-lo feliz.
     
Mas o estrago já tinha sido feito. Magoada, Mar também disse coisas para magoar o rei. E assim foi, o rei disse que Mar o tinha magoado profundamente. E Mar dizia a mesma coisa do rei. E continuou a esbravejar contra o rei e contra ela mesma.

O rei, um perfeito cavaleiro, resolveu ficar em silêncio. Ainda disse que jamais brigaria com Mar, que estava tudo bem, que ela era para ficar calma.
     
Mas a estrela, como já tinha previsto um dos 7 conselheiros, soltava fogo pelas pontas de estrela. Esse fogo chamuscou o rei e alguns de seus súditos. E queimou até a estrelinha Mar.
     
Ninguém sabia o que estava acontecendo. O que se passava com Mar?

O rei recolheu-se em seus aposentos e não falou mais com Mar. Decidiu nunca mais ver Mar. Estava ferido, queimado pelo fogo da estrela. E assim aconteceu. Naqueles dias não saiu mais de seus aposentos. De lá escrevia suas histórias. Em algumas delas ainda colocava Mar, porque a amava muito e isso não tinha mudado. Continuava mandando flores para a estrelinha, mas nunca mais falou com ela.
     
Mar enviou várias cartas ao rei, Senhor das Roças, pedindo uma audiência. Queria explicar. Mas o rei era irredutível. Estava sofrendo muito. Não queira sofrer mais.
     
Mar apelou até para o amor que o rei dizia sentir por ela. Mas o rei não cedeu.
     
Não sabia Mar que o rei estava sofrendo muito por se afastar, mas que fazia isso por amor. Ele sabia o que estava acontecendo com Mar, mesmo que nem ela mesma parecia estar percebendo. E assim como sempre tinha feito até ali, o rei queria protegê-la, cuidar dela, para que sempre fosse feliz. Ele sabia que ela sofreria agora de uma forma terrível, mas que era para a sua felicidade e de todas as suas estrelas-parentes que moravam no céu, no reino das estrelas.
     
Então Mar, depois de inúmeras tentativas decidiu desistir. Seu espírito ficou entristecido. Suas luzes de estrela começaram a se apagar. Mar também sofria muito.
     
Ainda fez uma última tentativa, e propôs ao rei que voltassem a viver sua linda amizade. Que passassem por cima  de tudo o que tinha acontecido. Que não jogassem fora uma verdadeira amizade construída com tantas batalhas, envolvendo todos os súditos e até os 7 mais importantes conselheiros do rei.
     
Até hoje Mar aguarda uma resposta do Senhor das Roças.
     
Ele nunca mais falou com ela.
Já se passaram mais de cem anos.
Mar vive triste e sem brilho.
     
Dizia uma das cartas de Mar ao Senhor das Roças que o que mais a fazia sofrer era o silêncio do rei. Ela sentia saudades do rei. Queria ouvir além de suas histórias, a voz do rei. Ela não conseguia entender porque o rei fazia ela sofrer com seu silêncio.
     
Mas uma coisa Mar sabia: Sabia o que aconteceu com ela nos cinqüenta anos em que estava no céu de estrelas. E contou isso ao rei em uma de suas cartas.
     
O rei nunca deu qualquer sinal de que leu essa carta e nunca falou com ninguém sobre o assunto. O rei continua escrevendo suas histórias, mas não sai de seus aposentos reais, não fala mais com a estrelinha e nem arma mais armadilhas para caçar estrelas cadentes.
     
E desde a última vez que o rei, Senhor da Roças, falou com a estrelinha Mar já se passaram 300 anos e mais de 220, que o rei não manda mais flores para Mar, e nem leva mais alimento para a casa estelar. Era ali que Mar se alimentava e buscava as forças para cantar suas lindas canções. Sem esse alimento Mar não tem como cantar.
     
Por isso, a estrela Mar já não canta mais suas lindas canções. Ninguém mais ouve a voz de Mar. Silêncio total na terra das roças e no céu das estrelas. A casa estelar está cheia de teias de aranha e poeira.
     
Todos os súditos da terra das roças fazem perguntas e mais perguntas sem respostas e aguardam o que vai acontecer adiante.
     
O que será que aconteceu com Mar para ela agir desse jeito com o rei?
     
Será que um dia Mar vai voltar para a casa estelar para cantar suas lindas canções?
     
Será que o rei, Senhor da Roças, além de voltar a escrever suas histórias para Mar vai continuar a colocar alimento na casa estelar e vai um dia voltar a falar com a estrelinha?
     
Até hoje, passados 300 anos, são todas perguntas sem respostas.
Maria
Enviado por Maria em 12/06/2006
Reeditado em 01/09/2009
Código do texto: T173837
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Sobre a autora
Maria
Blumenau - Santa Catarina - Brasil
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