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Matéria Musical

Há dez anos fiz do litoral o meu refúgio. Recolhi-me entre as dunas e as montanhas numa espécie de exílio proposital. Declinei das multidões com o único propósito de encantar o meu silêncio e povoar, com as ausências que me habitam, a solidão provisória que outrora embandeirei com gerânios e camélias. Vim fazer aula de canto com o vento e as ondas, queria aprender música com o mar e as casuarinas. E, de tanta substância musical derramada na areia, de tanta tessitura aérea exercitada nas ramagens, de repente meu poema tem a música das conchas, põe cortinas nas janelas com o véu das maresias e invade o céu da boca com um tom de sal na língua. O litoral é uma orquestra regida pelo vento sob a pauta das marés. É percussão de onda golpeando a pele da praia numa sucessão desatinada de líquidos acordes. O fole litorâneo não dá trégua, noite adentro, solfejando sinfonia em desvario. Há horas em que o mar parece querer se derramar, inundar, invadir de arpejos afogados minha insônia indefesa, canta grita se avoluma em melodias, depois se harmoniza em tímido recital de cordas, num mágico acalanto para o sono dos amantes. O mar se ameniza com serena serenata de maré. A música marinha contagiou minha poesia com timbres tão marcantes que transito pelos versos como se apenas fora tradutor do oceano. Há mar demais no meu poema, as sílabas se sucedem no mesmo ritmo alucinado das ondas em plenilúnio, na mesma inquietação sonora dos ventos desordenados. Eu, que buscava silêncio para o ofício da palavra, sofro constantes ressacas de sonatas e noturnos e madrigais. Eu, que pretendia habitar a solidão, sinto-me povoado por uma rebelião de acordes, sinto-me um homem só tocado por todos os instrumentos de uma orquestra colossal. Agora entendo porque o litoral é tão pleno de músicos e músicas, agora entendo a sonoridade solitária que conspira pelos bares, a poesia que pula corda no braço dos violões, que saltita nos teclados e se evade dos foles e assobia nas flautas. Agora entendo: é puro encantamento, é o mar se derramando em matéria musical.

Vaine Darde
Enviado por Vaine Darde em 13/06/2006
Código do texto: T175051

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Sobre o autor
Vaine Darde
Capão da Canoa - Rio Grande do Sul - Brasil
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Vaine Darde