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(imagem "Freedom", de Razz Guzz, www.thousandimages.com)

  UM AMOR SEM PRECEDENTES 

          Não me entendam mal ou me tomem por pretensiosa: meu centro está bem aqui, no umbigo do meu cérebro e no mundo em que eu acredito e não aquele que me impõem. Por essas e outras, minha vida não seguirá por rumos que irão rasgando minha carne com flechas ou cacos de vidro banhados no veneno da culpa. Minhas, tuas ou de quem quer que seja. O que sou é o que tenho e o que tenho é meu. Pessoal e intransferível. E nada ou ninguém pode apossar-se disso, visto que minha roupa só cabe em mim mesma. Feita sob medida, em outros, daria a sensação de que o defunto ou era maior ou menor, mas não do tamanho certo. 

          Não me arrastarei pelos pântanos das lembranças, rastejando junto a víboras e répteis outros, ocupando-me do que já não é. Não nasci feita para o jejum, a migalha. Meu destino é a abundância e os restos mortais do passado não se prestam a minha mesa. Tampouco tenho vocação para velórios, funerárias e cemitérios. 

          Não tenho coleiras amarradas a velhos troncos ou âncoras presas a um mar escuro que as lembranças remotas enevoam. Tenho asas. E elas insistem em ir adiante. Não fui feita para museus, baús de recordações ou descobertas do passado que para nada me servem. Minhas asas me levam para o que ainda não conheço. E tem que ser agora, porque pode restar pouco tempo na ampulheta e há tanto que ver. Não tenho freios, meu pé só conhece o acelerador e não me agrada o retrovisor. Uso o espelho apenas para refletir sobre meus desacertos e mudar o rumo da estrada se necessário. 

          Não passarei meus dias deitada e encoberta pela poeira dos erros e falhas meus ou de outros, lançados vez por outra como quem pretende cegar meus olhos para o horizonte. Recuso-me veementemente a viver minguando. Não fui feita para o pouco, faço minha mesa farta a mim mesma e eu própria me dou de comer. Nem todo mundo pode entender isso, mas vivo numa simbiose extremamente positiva entre eu e eu mesma. Sempre há uma eu de plantão alimentando a outra. Há quem chame isso de egoísmo, desencanto, ou mesmo, amargor. Eu chamo de amor. Amor por mim. 

          Não recusarei a presença dos que me querem bem e me fazem bem. Ao contrário, vou convidá-los a minha mesa e a minha vida, sem deixar entretanto, de me lembrar todo dia que a grande responsável por meu bem e meu mal está dentro de mim. Houve tempos em que pensei que alguém ou alguma coisa de fora me traria a satisfação ou me faria feliz: engano. Mas isso foi antes de eu acordar. Uma vez desperta, a criatura nunca mais dorme.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 14/06/2006
Código do texto: T175237

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai