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Admirável mundo velho. Ou a sociedade perfeita?




A ordem natural da vida seria profundamente revolucionária se ao contrário de nascermos bebês, já nascêssemos velhos. Isso mesmo: já com a idade bem avançada.
Imagine-se vir ao mundo com, digamos... 90 anos — estabeleçamos essa idade apenas como um ponto de referência para desenvolvermos nossa extraordinária abstração. Ela poderia ter variações, tal como casos de “nascimentos prematuros” aos 80; ou quem sabe até mesmo com 75. Bem, continuemos a nossa digressão.

Nada de tapinhas no bumbum, provocativos de choro como sinal de que tem fôlego o suficiente pra mergulhar na profundidade da existência, dados pelo médico; nada de dores de partos; nada de enjôos ou desejos femininos às quatro horas da matina; nada de barriga durante nove meses.

Você mulher deve estar se perguntando: “Isso significa que não terei aquela charmosa barriguinha de fazer inveja nas minhas amigas? Não estourarei o cartão de crédito comprando o enxoval e decorando o quarto? Não sentirei chutes nas costelas e nem ficarei conversando com a própria barriga?”

E os homens: “Então não terei que me preocupar com escolinhas que cobram mensalidades absurdas? Poderei dormir tranquilamente mesmo depois de chegar tarde após um clássico Fla Flu? Nada de ajudar a limpar as cacas com aspecto de vitamina de abacate?”

Aí já vislumbramos os efeitos revolucionários.
Como se daria a concepção? O modus operandi tradicional seria mantido para deleite usual. Porémmm... acabam-se os nove meses de espera. Após uma semana bate à sua porta seu filho-avô ou sua filha-avó resultado da junção fluídica dos pais em espantoso e rápido desenvolvimento.

Já chega ao convívio familiar com suas faculdades mentais totalmente desenvolvidas e seu reservatório de experiências de vida, abarrotado.
Por herança genética já nasce falando fluentemente um, dois ou mais idiomas.
Com esse cabedal de conhecimentos, cuida de seus pais como se fossem seus filhos. Com uma grande diferença: não precisará mais ralhar com eles quando erram ou se precipitam em desordenados projetos de vida. No seu primeiro aniversário de 89 anos, a casa estará cheia de velhos amigos em meio a correria de crianças maduras e educadas que na verdade são seus tios, primos e avós.

Nos seus primeiros 35 anos de vida, viverá desfrutando de uma justa aposentadoria.
Recebendo seus proventos e preenchendo seu tempo com ampliação de sua consciência sobre valores elevados que já sabe que são as coisas mais importantes da existência; essa consciência leva a não cometer mal algum tanto a humanos como a animais; uma ampla e natural consciência ecológica; crimes são desnecessários porque não há desigualdades.

Paulatinamente o seu vigor físico e todo o seu fluxo de energia se ampliam moldando-lhe um estado atlético de forma natural e saudável. Ao chegar aos seus já longevos 20 anos, seu nível de responsabilidade estaria próximo do inacreditável.
Escolas existem apenas para encontros de trocas de conhecimentos.
Amar deixa de ser um verbo intransitivo e passa a ser confundido com o próprio mundo;
A medida que “avançamos” em regressão de idade, somos invadidos por uma felicidade de difícil definição através das palavras: algo como voltar pra casa, já velha conhecida. Por isso não há medo pelo fato de saber-se com antecedência que se vai sair de cena com data marcada.

Passando-se os últimos meses de vida, chega-se finalmente ao inicialmente. As palavras cessam; os olhos brilham cheios de plena consciência.
Silêncio. Alguém está despertando.
leandro Soriano
Enviado por leandro Soriano em 20/06/2006
Reeditado em 21/06/2006
Código do texto: T178738
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Sobre o autor
leandro Soriano
Santos - São Paulo - Brasil, 59 anos
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leandro Soriano