Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

MINHA PRESSA

Quando eu era moço via a vida passar lenta e eu apresado corria. Não me detinha nos detalhes dos meus dias de jovem. Quanta pressa eu tinha. Noite, dia essa alternância como me aborrecia. Sem eu perceber as minúcias diárias a acontecer e o velho refrão retinia:
Calma, mais de vagar.
Para que essa pressa?
És tão jovem...
Não te precipites, cuidado!

Jovem eu era e como tinha pressa. Ah! Como eu tinha pressa e como me custava aceitar tanta lentidão e ninguém era capaz de entender a minha pressa, precisava ligeiro ir ao encontro dos meus sonhos. Somente este era meu objetivo, sem a mínima atenção aos detalhes, achava que muito mais merecia imoderado cobrador eu fui. Egoisticamente tudo queria, visto que a medida do ter nunca enche.

Habituei-me às exigências, as conquistas e ao ter, valorizando-o mais que ao ser. Jovem e apressado naqueles dias fui incapaz de perceber que das duras cobranças nascia um grande devedor. Daqueles dias de impaciência juvenil guardo as lembranças, frenético eram os meus dias.
O tempo passou e nem mesmo minha inexorável pressa o deteve eu que o achava tão moroso não tive pernas para alcança-lo, adiantou-se está além de mim. Vã ilusão da minha ávida juventude naqueles dias.

Hoje mais devagar vejo os detalhes que deixei passar e os ditos insignificantes, aqueles que quase ninguém ver, que valor hoje lhes dou. A medida que nunca parecia encher-se em nada adiantou o meu ser, e, o muito que amealhei servem-me de estorvo quero me desvencilhar mas estão demasiados arraigados em mim, serviram à inveja e estimularam-me a vaidade. Minhas conquista por elas quase fali. A desarvorada pressa que por muito me manteve cativo e insensível a tudo ao longo de minha jornada foi cessando.

Portas, gavetas, janelas e escadas, outrora obstáculos à minha corrida; agora abro-as e fecho como se tivesse acariciando-as. Os degraus, sobretudo, me servem à reflexão; quando, alguns já foram vencidos, paro e não raro tenho que muito fortemente me segurar ao corrimão...
- Desculpa aí tio, foi sem querer...
- Não te preocupes entendo a tua pressa, vá em frente jovem.
- Ei... Já se foi! Tem pressa.

Veio-me uma vontade louca daquele refrão repetir. Mas para que? Certamente ele não quererá ou tal vez não tem tempo para ouvi-lo. Entendo, eu também, tinha tanta pressa. Será que ainda o lembro:
Calma, mais devagar.
És tão jovem ainda...

Já não tenho nenhuma pressa. Que coisa, a noite chegou!!!
As horas passam tão rápido fazendo o tempo correr e só agora começo a perceber os detalhes da vida.
Desde o alvorecer me detenho aqui, ali à cola. Admirando-me de tudo, sinto que não terei mais tempo para recolher o que deixei passar por tanta pressa ter. Eu tão jovem não conseguia compreender que meu afã juvenil, célere me levaria ao envelhecer.

Nos dias atuais observo às alternâncias, espero calmo o entardecer; desperto tão cedo e tranqüilo a fim de não perder a sinfonia dos pássaros saldando o amanhecer, passo minhas mãos – teimosas parece não quererem me obedecer, sob os objetos que vou encontrando, estorço-me para lembrar minudências que deixei passar.

Não tenho mais a pressa do jovem expedito que fui. Sento-me bem devagar. Tornei-me fiel a contemplação – o lugar é estratégico, aqui fico sem me abalar vendo a correria de todos de lá para cá; daqui para lá. Assim como eles, jovem, eu também, fui, e, quanta pressa eu tinha. Ah, que só agora me veio o velho refrão!

Calma, mais de vagar.
Para que essa pressa?
És tão jovem ainda.
Não te precipites, cuidado!

Que coisa nem me apresentei – Me chamo Benedito Amâncio dos Santos, mas estejas à vontade e pode me chamar de Bento que combina mais comigo nesse momento, pois, rima com lento. Compreendo a tua pressa, bem sei que não tens muito tempo para me prestares atenção, também já fui assim como tu. És tão jovem ainda, sei que não irás me entender, mas, cuida-te o tempo te asseguro vai passar tão rápido tu não vais te perder. Assim como os dias, assim logo vai te chegar o teu envelhecer.
Não te precipites.
Cuida-te.

Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 28/06/2006
Código do texto: T184137

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para a obra original.). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
476 textos (16068 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 08:00)
Cláudia Célia Lima do Nascimento