Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Chuva Invertida

 "Isto soa como água fluindo do chão, é como chuva invertida”.

   Estágio 1: Voltando para Casa.

   Caminhando com passos curtos e ritmo acelerado, passos de certeza com meus chinelos velhos e costurados com linha de pesca. Esses passos ansiosos procedem a essa minha jornada, minha aflição e minha tentativa fracassada de vencer a solidão. Estive a caminhar por tanto tempo, que até em sonho meus pés doem, doem não pelos passos consecutivos, e sim pela frustração que se faz presente desde o começo desse inverno.
   Estive fora por três estações, três estações multiplicadas por quatro... Todo ano, três estações... É, três estações... Nunca conto o inverno, pois este me faz chegar até o ponto mais alto da solidão, o inverno é vazio, assim como estou também, por isso não o conto em meus relatos pessoais.
   Ansiedade maltrata ainda mais este corpo cansado, calejado pelas repetições de movimentos e sentimentos, sangrando por fora e chorando por dentro. Quanto tempo mais terei de esperar até poder me sentir em casa novamente depois desse tempo todo? Sentir o cheiro de meus lençóis e de minha roupa de cama, brindar comigo mesmo essa decepção com meu vinho mais caro e por fim tomar o banho mais significativo de minha vida... Mais alguns passos e estarei em casa, alguns poucos passos, poucos, poucos, mas a vontade de desistir é grande demais, mas estarei lá em breve, até consigo sentir o cheiro da saudade se desfazer e dar lugar ao aroma da vitória... Vitória simples, mas é vitória da mesma forma...
   Finalmente à porta de minha casa que permaneceu intocada. Apresso me a entrar, e logo avisto meus sofás seminovos e semi-empoeirados e a vontade de descansar se torna incontrolável... Despeço me de minha mochila velha e me sento por um instante, ins-tan-te e já me adormeço, por fim o cansaço dá uma trégua, mas logo o frio me incomoda, pois meu agasalho velho já não se propunha a manter-me aquecido, e em alguns minutos o frio se torna insuportável e me desperta sem piedade... Vou me apresentar ao próximo estágio: queria me apossar de alguma comida, mas depois de tanto tempo fora, não havia nada do que pudesse ser ingerido sem causar mais mal. Mas com todo esse frio a única saída, como uma última tentativa seria um banho quente...

   Estágio 2: Banho em Dias Frios.
 
   Posiciono-me perto do chuveiro, despido e com frio. Aos poucos vou abrindo-o e água vai fluindo e demora a ficar quente, deixo que o vapor se espalhe por todo o banheiro, antes de me banhar por completo, vagarosamente vou entrando debaixo do fluxo quente e deixo a água cair, é tão relaxante que até fecho meus olhos. Fico com a mente tão límpida que se torna agradável essa situação, e me faz querer permanecer assim por mais tempo... Mas depois de alguns minutos de harmonia, a realidade logo está de volta me forçando a cessar o fluxo que me banhava. Pendo-me até a frente do espelho; que se embaça com o vapor úmido que se propaga através desse ar gelado de meu banheiro, a água estava quente, o corpo está quente, mas a mente está fria e em cubos pequenos. A imagem minha, distorcida pelo espelho embaçado me espera e alteração continua, passo a tocá-lo e ele se torna água, mas diferente de água; "você fica aqui e eu vou", me falo suspirante, eu e eu, eu "corpo" e eu "mente", qual vai e qual fica?
   E assim só você vai, mas me mantenha perto, me descreva essa emoção, sensação e principalmente essa visão que "nos" espera...

   Estágio 3: ???

   Tudo é verde com luzes azul meio púrpura e nas bordas tudo se mistura... É como estar e não estar, é respirar e não ter pulmões, e viver e nunca questionar seu sentido ou seu caminho. Estou indo contra minha própria direção em rota máxima de colisão, profusão de questões: "onde estou?"; “onde isso vai levar?"; nada disso importa, o que importa realmente é essa sensação, ela é exata, mas receio que minhas palavras usadas para descrevê-la não, mas vou tentar do mesmo jeito: é como ir a floresta e não ver uma árvore, é vivenciar um ato inexistente... A luz me afugenta e ao mesmo me abriga e me leva longe. "Longe?!, mas pra onde?!", "Pare de me questionar, eu também não sei!"... Já posso sentir o chão, e está úmido, muito úmido, ainda estou nu, e é estranho, pois sinto um vento amistoso soprar sobre esse campo... Que me parece ser de trigo... "Mas porque trigo?", em que parte do mundo estarei eu? É noite, e o céu está bem estrelado, estrelado de um modo que eu nunca imaginaria, e o brilho delas é tão intenso, até parece que acabaram de "nascer", e a lua está tão próxima que quase consigo alcançá-la quando estendo meus braços. "O que tem a sua volta?", só vejo campos e mais cam... Agora estou vendo uma espécie de... Acho que é um jardim com muros muito altos, todos revestidos com plantas e folhas e sinto uma leve brisa me empurrando para lá...
   Vou caminhando, agora com muito pouco medo e com muita expectativa de o que eu posso encontrar lá, caminho sobre o chão úmido desse campo gigantesco de trigo, caminho com os braços abertos e apreciando essa visão que com certeza sou privilegiado de estar vendo... Caminho em volta daqueles muros altos na procura de uma porta...Agora posso afirmar que essa construção tem um formato de um quadrado, "mas onde estaria a entrada?". Fico parado por uns instantes e de novo aquela leve brisa se faz presente, agora seguida por uma luz, e ambos indicavam uma direção, fui seguindo a brisa e a luz e ambos levavam a uma parte mais escura do muro, onde vi que por traz daquelas folhas e plantas existia um portão, que custou a abrir...


   Estágio Final: A Chuva Invertida

   Sem palavras eu fico, nada mais importa... Depois de eu ter visto tamanha perfeição, tudo além daquilo se tornaria medíocre, o que compensaria aquela visão no mundo real? Nada podia, e eu sei disso...
   As flores são as mais lindas que alguém poderia ver, todas aquelas cores, apesar de ser noite tudo é tão claro, é como se a lua dedicasse boa parte de sua luz apenas para esse local e isso o torna ainda mais perfeito... As pequenas árvores nas extremidades, cada qual com sua graça e cor, adentro mais alguns passos e a brisa outra vez mostra-me o caminho, desta vez aponta-me para uma estátua no centro, de dois anjos, um de frente pro outro e com as mãos levantadas para o céu que se encontra mais estrelado do que antes, ambos têm faixas amarradas aos olhos, o que pode mostrar que nem eles, os anjos, podem desfrutar da beleza exuberante desse jardim secreto... Mas se nem os anjos podem apreciar essa criação tão perfeita, porque tive esse privilégio? Enquanto eu me questiono, algo começa a acontecer, eu posso sentir, algo de muito bom está pra acontecer...Eu fico inquieto e olhando para todos os lados para não perder nada da perfeição que está a ponto de acontecer...Logo começo a sentir cheiro de chuva, um aroma suave de terra molhada, e isso vai aumentando a cada segundo, segundo por segundo. É quando olho para o chão de grama baixa e algo está começando a sair do solo, abaixo - me ajoelho para ter certeza do que é, me surpreendo quando percebo que é água que está fluindo do solo. E este som. É som de chuva fraca, "mas onde está a chuva?".
   Algo de mágico acontece... As gotas que fluem da terra vão subindo levemente e vagarosamente em direção a imensidão desse céu estrelado... "Subindo?!". Uma a uma elas vão subindo, e mais e mais e mais, e todas quando chegam a uma altura, não na mesma altura, um  brilho começa a surgir dentro delas, e quanto mais elas sobem, mais intenso fica esse brilho, e sobem mais e mais e o brilho se torna luz, uma luz plena e linda... E quando elas chegam ao céu, o estrelado se multiplica e se torna muito mais indescritível... Passam quatro ou cinco minutos e eu me torno petrificado pela beleza, estou imóvel e sem palavras outra vez, apenas observo essa chuva linda que vai cessando. A melodia da chuva vai parando, mas o cheiro de terra molhada permanece... E meu corpo está molhado também, mas não tenho frio, na verdade não sinto mais nada além da satisfação de ter presenciado esse fato tão lindo.
  Minha vontade agora é ficar aqui pra sempre e por isso deito-me na grama molhada e perco-me a olhar o céu ainda mais constantemente, qual seria o motivo daquela chuva? E porque somente eu a presenciei? Tantas questões e apenas uma certeza: quero ficar aqui por uma eternidade olhando esse céu e esperar até todos os meus órgãos pararem, um a um, até que a luz da vida deixe meus olhos, porque depois de toda essa perfeição nada mais faz sentido, e nada, eu digo nada mesmo na minha vida comum compensaria essa minha sorte...
   "Aí então eu percebo... que é neste lugar onde nascem as estrelas".

Andrey Teixeira [entre dias 27/06 e 02/07/06]


   
Andrey Teixeira
Enviado por Andrey Teixeira em 02/07/2006
Reeditado em 31/01/2012
Código do texto: T186483

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para a obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Andrey Teixeira
Ilha Solteira - São Paulo - Brasil, 28 anos
107 textos (6997 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 04:08)
Andrey Teixeira