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Cantos ao roubo da primavera

I

E PERGUTARAM-ME se os ventos que correm teus cabelos
São realmente teus, disse a eles que eram os teus servos que
Você nunca explorou, pois teus condenados são pela paixão e
De recompensa almejam teu amor, os que em ti se adornam
Em ti também morrem. Condenados a afogar-se em mares calmos.

E DISSERAM-ME também que de tua luz fazem alimento
Mas, para as almas que te desejam não basta saber que você está
Sim que você é, não que você têm, Mas sim ao que você quer
Quando pensaram em te punir por todos os teus pecados,
Os lembrei que suas páginas são brancas e límpidas.

MESMO que em teu passado haja mil maculas, tua juventude
Me renasce sempre, e por isso não se aplica qualquer punição
Teu rosto harmonioso não deixa transparecer a dor que um dia
Houvera sentido, qualquer amor que não tenha, Ou problema
Que tenha tido. Eles dizem, eles perguntam, e amo.

QUANTO tempo houve enquanto eu te esperava? Talvez tuas
Vinte e seis primaveras, tempos bons, que me distanciam tanto
De ti. Talvez este tal tempo não tenha terminado, talvez as ondas
Curtas insistentes do tempo a minha paixão, vela cálida, apague.
Caminha a passos longos o que nunca acaba, e a vela, nunca apaga.

DISSERAM-ME que, longe dali havia uma casa, nela havia um jardim
E neste encontravam-se rosas, era onde você a meus olhos se perdia
Pois por mais que eu procurasse, a tua beleza semelhante me confundia
Então recostei a pedra da frente, e fiquei calmo a procurar, você estava
Linda como sempre esteve, mas estava triste, e inevitavelmente, chorava.

II

E OS POETAS moravam nas casas vizinhas, não, eles não gostavam de mim
Diziam que o que eu escrevia não rimava. E também que tudo que fazia
Era exigir da língua escrita, o que a falada não consegue dizer. Acusaram
A mim de usar esta para exaltar-te, disseram, disseram, disseram... Eles
Somente invejam, Vieram me contar da guerra, deram-me uma espada.

DERAM-ME uma espada e me tiraram as epístolas não enviadas, e me
Tomaram o giz, me tomaram o carvão, rasgaram minha tela, então tive
Que desenhar tua imagem bela apenas com meus olhos castanhos no chão.
E eu fiquei indefeso com uma arma na mão, Mas quando eu mato, a mim
Mesmo firo,como tirar minha própria vida em nome de um filho rico?

E QUANDO me informaram que o rei não foi ferido, mas que não havíamos
Desposto a guerra, o mal. Descobri nesta hora o pior, nós éramos o próprio
Mal, pois, nós sustentávamos a guerra. Dei então com os passos fora do cavalo
Meus passos curtos alcançavam um, ou outro soldado. Disse-lhe sobre
As maravilhas do amor, disse como me sentia forte, sem ser agressivo...

SOBRE AS NOITES todas em que o frio passava em outras montanhas, e então
Um pôs a mão no coração próprio e soou no ouvido meu, disse sobre
A morte sua pensada pela sua família, e do desprezo que tivera na infância
Pelas rosas, dizia a mim, que as rosas do seu jardim levaram seu pai embora
Enquanto ele admirava-as, o sangue de seu pai regava os campos de batalha.

CHOREI POR UM MOMENTO, baixei a cabeça, ergui a espada ao sol, ela era pesada
Então disse a mim mesmo... Não disse nada, os raios de sol, que me lembravam
Teus cabelos, se fizeram tão sólidos, os pude tocar, os confundi com minha arma
Ouvi galopes a tremer o  chão que eu pisava, as trilhas secas entre a estepe
Que a guerra “plateiava”, não batia palmas pro espetáculo de horror. Eles chegaram.

III

HAVIAM nos saqueado a noite, e de tarde pensávamos já no outro dia, o sol
Ainda morria gemendo no poente quando nos puseram fogo. E correndo sem
Rumo sob as pisadas firmes de seus cavalos, eu procurava esconderijo, eu procurava
Abrigo, mas só encontrava guerra. Eles desistiram, mas, agora já é tarde, estamos
Derrotados. Pensei por um momento em teus olhos eternos, mas outra voz agonizava.

PENSEI ESCUTAR meus pensamentos tristes, mas o soldado desacreditado, havia caído
Estava ferido. Padecia ante meus braços impotentes. O tomei nos braços
E o conduzi em meus ombros inseguros, não tinha abrigo. E por ordem dos
Inimigos, ele havia morrido em meus braços. Certa vez que este me contou
Sobre sua mulher e filhos, disse que a esperança da caçula era equivalente à esperança tua.

AINDA HAVIA uma última nau, na qual embarquei para descer no porto
Já voando a teus braços, te encontrei de novo primavera, me lembrei que
Havia deixado-lhe enquanto você chorava... E por quê pranteava? Minha dúvida
Havia ido a guerra com a minha arma, digo a ti, meu amor, a espada não
Era minha, e não, não pense não, eu não, não feri ninguém.

E COMO HAVIA lhe prometido, não fiquei afastado de ti mais de uma primavera
Não pus sobre meus braços as vidas que queria dispersar pelos campos extensos
Da felicidade, e esta onde se encontra, conta-me não... Quero saber do teu choro.
Amor, o mundo é injusto, apesar de toda a esperança e paz que atira a todos
É pena não ser o suficiente, você faz adornos ao mundo, e ele quer lhe tirar o que tem.

TODA A BELEZA tua é fruto da tua profunda candura, tão profunda como teu suspiro
Fértil, que faz nosso inverno, verão... Que faz da minha espada maculada
Um imenso coração. O teu coração que é imenso, e para todos se divide, ao mesmo
Tempo que a todos une. Suplico pelos outros que ainda não te conheceram, que
Tenham a sorte de escutá-la, de senti-la, de vê-la. Eu tenho uma imensa sorte.

IV

MINHA FORTUNA é ter ao nascer dos dias que restam a tua faraônica virtude
De querer ser o bem maior para os outros, mesmo que de sol a nuvens sua vida mude
Não tivemos grandes colheitas, este verão a fartura não encheu nossos olhos
Mas, de que adianta a bonança quase macula? Se ao alcance dos teus olhos
A todos os maus temos nós a cura? Louros-trigo no verão dos campos dourados.

LENDAS me pareciam sempre distantes, mas perto de ti tudo é possível, resolvi
Então, desvendar os mistérios da vida. “A vida não tem mistérios” disse-me você
Pus-me a ignorar-te, e a procurar meus materiais, onde está o giz, onde puseram
O carvão? Testando a precisão do carvão, desenhei tuas inicias no meu rosto
Três riscos horizontais firmes, e outro perpendicular mais fraco, e um “K”.

MEU AMOR, olhe pra mim, desenharei na tua parede teus olhos. Não terás
Tu assim, necessidade de olhar-se numa jóia polida de prata. Teus olhos
Estariam eternizados ali, e quando lhe pedissem calor, quando lhe pedissem
Exílio, mostraria tu, teus olhos. E quando for eu que vier fugido da vida, deixe-me
Dizer novamente a maravilha mentirosa das terras que visitei, das vidas que perdi.

EU QUIS, imensamente voltar a Santa Maria, e você disse então: Por quê não?
Fiei-lhe então dois agasalhos brancos, bordados com desenhos simples,e
Com palavras sagradas, Teu nome, e teu sobrenome. Então após horas hostis
De caminhada, tuas pernas estavam demasiadamente cansadas. Teus olhos queriam
Sono. A pus sobre a estepe, e sobre ti os agasalhos que lhe fiz bem tecidos.

NÃO ERAM, meus agasalhos, presentes ruins, eram feios aos olhos dos outros
Mas, quentes a teu coração. E como de esperado, você agradeceu o agrado, tua simpatia
Não desmentia, era o mesmo esperado. Via eu nos teus olhos o calor dos tecidos
Meu coração agora ficava maior e seguro, respirava teu bem-estar. Durma bem
Meu amor mais lindo, que amanhã partiremos para o mar.

V

-ANJO, ACORDE! Os do porto não esperam. Era de manhã e portanto não havia
Aquela brisa fria no cais. Pedi a multidão passagem à deusa-menina
Deixei a mão do cobrador pesada com as duas moedas que nos restavam.
A viajem será curta meu amor, espero que não enjoe. -Olha, amanhã de manhã
Chegaremos ao porto dos sonhos,e então serão poucas milhas a Santa Maria.

POMO-NOS a dormir, adormeci vendo você bem postada no travesseiro de lã
A noite foi interrompida, eu acordei, o barco havia parado. Ouvi discussões
Parecia a voz do capitão, me lembrava desta, pois ele havia gritado com um alferes
Pela manhã, no porto. Fiquei a escutar os sussurros do lado de fora... Abri aporta que
Dava para a Proa, estavam lá os poetas meus vizinhos, a procurar a primavera...

PENSEI, que eu, era eu quem havia roubado a primavera. Então voltei à cabina
Toquei os cabelos da primavera, e você ainda dormia primavera. Deu-me remorso
Despertar teu sono, que, de novo, eu achava tão belo. Mas, tive que cometer este pecado
Cantei suavemente no teu ouvido, e você aflorou. “-Vamos, vamos, eles te querem
De volta, esconda-se...”. -Eles quem?” Os que sempre te quiseram primavera.

CORREMOS a toda para a popa, eles não nos alcançaram. Corremos ao perceber que vasculhavam tudo. Chegamos então a ponta traseira do barco.... e não havia mas para onde
Correr. Eu lhe disse então: “-Perdão meu anjo, perdão...” Tu então puxou pelo braço
E nos atiramos juntos ao mar, você então se ergueu.... E me perguntei por quê não havia ido
Embora da vida, foi quando vi a envergadura branca das tuas asas divinas a cortar o ar.

VOCÊ VOOU seguramente a uma direção, e antes que eu perguntasse, me respondeu que
Os ventos nordestes indicavam o caminho de Santa Maria. Eu pela primeira vez me tive
Nos braços da primavera, então, tão seguro, eu sonhei... E quando acordei, ainda estava
Num sonho. Vi-me realizado, fugira da guerra que tanto me faz mal, não a confundirei
Mais com as rosas do jardim, não terei mais a voz rouca daqueles poetas no me juízo...

DEI-ME conta que o mais importante de tudo, que mais uma vez, por amor, estava seguro.
Chegamos a Santa Maria no despertar da Alvorada, e a Santa Maria aconteceu um adorno;
Presente dos muitos anos, como no verão, a chegada da primavera fez os campos de trigo
Florescerem satisfatoriamente. E de luz encheu todo o meu coração, no vôo maravilhoso
Quase anestésico, dei-me a esquecer até, que tinha um imenso medo de altura.

E os agasalhos que fiei a ti, ficaram guardados, a primavera nos aquecia por si só.
Andrié Silva
Enviado por Andrié Silva em 10/07/2006
Reeditado em 10/07/2006
Código do texto: T191330

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Sobre o autor
Andrié Silva
Salvador - Bahia - Brasil, 27 anos
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Andrié Silva