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PRIMO ANGELO


Com olhos de menina passeio pelas memórias da infância e, mais uma vez,  visito  o quintal de Nonna Tereza, muito vasto para a minha percepção de criança. Finais de semana, ponto de encontro de sobrinhos e netos.
Jovens primos, seus sobrinhos, vindos recentemente do Velho Continente, Itália tão distante, viagem tão longa, presente ainda o eco do apito do navio, o porto de Santos, o trem, a serra quaresmeiras, fontes d'água, emigração. Em volta dos moços, nós outros pequenos, os netos, brincávamos e admirávamos: tão jovens, garbosos, alegres, os primos sorrindo, falando, nascidos na velha aldeia tão alta, vizinhos do céu, no Vale dos Anjos, quase onde adormecem os querubins.
Entre eles, o primo Ângelo, nome e rosto de serafim, de todos o mais lindo, sorriso dos príncipes, das fadas, dos contos, personagem dos romances de capa e espada, heróis e heroínas.
Tempos de rock, brilhantina, lambretas e romisetas. Na garupa, os moleques da família, muitas voltas...
- E menina, pode não, é? - e amuava...
Os garotos riam-se, debochados, valorizando privilégio ímpar. Tímida, quieta, introvertida, ficou para sempre calada a vontade de correr vento contra o rosto e cabelos, livre.
Assim o tempo passou, cresci ainda quieta, distante, porém tomando ciência da vida e seus percursos, jamais esquecendo sorriso aberto do primo quase anjo.
Um dia, casou-se, nasceram-lhe as filhas e creio que tenha sido muito feliz em seu pequeno harém. Visitas esparsas à casa da nonna, outros compromissos, caminhos outros, família criada. O tempo passou a todos curvando, o elo maior, vovó faleceu, distância aumentou. As festas, então, nos serviam a comunhão, prazer de rever.
Certa vez, visitei o seu vale, bem próximo aos anjos, aldeia adormecida no topo da montanha. Conheci-lhe a casa materna, família saudosa e, nas ruas estreitas presépio, imaginei-o criança a brincar sem se aperceber do exílio final.
Neste relato feito de afeto, em que hoje repousa a lembrança, o primo tornou-se anjo e entre eles, agora, caminha. Enfim subiu o degrau que o separava do paraíso, deixando-nos feito nuvens tentando tatear o céu.
Meus olhos de menina atravessam a poeira azul para entregar-lhe delicada prece.
vitória Paterna
Enviado por vitória Paterna em 14/07/2006
Código do texto: T193617
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Sobre a autora
vitória Paterna
Santo André - São Paulo - Brasil, 63 anos
133 textos (8672 leituras)
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vitória Paterna