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Talvez porque não tenha mais lido o jornal, não sei, não lembro de pegar na soleira da porta quando passo de manhã pisando nele.  Talvez porque o calor do sol de hoje me faça pigmentar de novo e eu nem queira mais entender porque alguém no oriente estaria enriquecendo urânio.  Pode ser pelo inverno chegando ou pelo atrevimento das borboletas que amanheceram bicando as flores do meu quintal.  Talvez seja pela minha falta de grana, que não me preocupa mais nem um pouco, ou pelo carro que eu nunca tive, nem quero ter.  Pode ser que seja pelos quatro cachorrinhos pequenos e peludos que lambem a minha testa toda vez que eu chego em casa depois de um dia doloroso, ou pela espera da semente de pimenteira que eu plantei num vaso velho e só brota daqui a quatro meses.
Pode ser por causa do julgamento de uma bela e rica assassina confessa, pode ser pela escalada da violência, o tráfico do Rio, o tráfego de são Paulo, as crianças corroídas pela cola e pela desgraça, e sobretudo pela fé em algum tipo de justiça invisível que cure os nossos males.  Pode ser pelas tetas plastificadas, pelos casamentos de publicidade, pela invasão dos super-heróis americanos que se apropriam de velhos mitos para ganhar bilheteria, pelos enlatados musicais e gastronômicos.  Quem sabe seja por essa porta dupla que leva ao melancólico camarim dos meus personagens soturnos, ou pelo último inesperado ganhador do prêmio jabuti ou da mega-sena.  Talvez seja pelos clássicos da literatura medieval, por Chrétien de Troyes, ou pelo neo-concretismo agonizante das esquinas sujas de Copacabana.  Pelos meus dois avós, que já se foram sem quase nada me ensinar, pela vaia da torcida adversária do meu time (meu time anda mal das pernas), pela descoberta do novo planeta e pela refutação de que se tratava apenas de mais uma estrela, ou pela praia enluarada onde meu filho será gerado num gozo fabuloso.  Ou por tudo isso ao inverso, ao avesso. Pelos acontecimentos milagrosos e atordoantes do nosso mundo até ouso dizer que estou curtindo essa existência.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 18/07/2006
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T196630
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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