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Amor de Sol e de Lua

Amanhece mais uma vez e, fitando a luz outonal do Sol, que brilha singela e fria por entre brumas, me faço perguntas, me lembro de amores antigos. O sol, que nessa manhã tenra, rouba o lugar antes dominado pela Lua; branca e cintilante no céu denso, negro, todo de breu e de estrelas. Dois corpos, que numa eterna dança, um ir e vir diário, nunca se encontram. Dois amantes que, separados pelo destino, brilham e iluminam, mas sem se tocarem, sem se sentirem. Como pode ser um amor desses, que vive da esperança eterna de um encontro, de um beijo, de um toque. Como podem dois corpos tão vitais e tão dependentes um do outro viverem assim? Me pergunto.

Já tive um amor desses. Um amor que sobreviveu alimentado pela ilusão de um dia ser real. Um amor como o do Sol e da Lua. Tão distintos e tão iguais. O Sol; pura luz, calor, vibração. A Lua; mesmo cintilando, só se sabia Lua, porque tinha o Sol como espelho. Só se sabia corpo quando, por breves instantes, vislumbrava o Sol, surgindo imponente no horizonte. Quem dera eu pudesse ter vivido esse amor... Quem dera todo meu calor de Sol, minha força, meus raios quentes e reluzentes, pudessem um dia ter tocado a natureza frágil, sensível e carente da Lua. Como num conto de fadas, o encontro aconteceria, quebra-se o encanto e de repente, Sol e Lua se tornam um só corpo.

O Sol, pleno e único, rei de todos os reis; completamente rendido aos encantos delicados e misteriosos da Lua. Mas que Lua era essa que fazia do Sol escravo de suas travessuras, de seus labirintos sinuosos e desconhecidos? Lua tão distraída e insegura de seus movimentos, não sabia que o Sol; completamente inebriado por sua sensualidade; também esperava ansiosamente seu levantar discreto e lento ao entardecer...e sofria calado vendo seu amor ao longe, sem poder tocar-lhe sequer. Que amor impossível era esse? Condenado pela distancia, pelo universo. Merece um amor assim ser eternamente prisioneiro do tempo e do espaço? Quantos amores já tive...mas impossíveis??? Um apenas. Acreditem os mais céticos, amores assim nunca saram, são como um vício que volta sem que possamos controlar. Não se dá conta e lá estamos novamente, Sol e Lua, bailando num eterno flerte, vivendo do sonho de um beijo. Escravos da impossibilidade.
             
A tarde de outono cai, fria e pálida. O Sol dá lugar a Lua e meus pensamentos dão lugar ao cansaço. Um dia termina e, com a certeza de que outro virá, adormeço.

Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 19/07/2006
Reeditado em 19/07/2006
Código do texto: T197520
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Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Mari Mérola