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Minha irmã, Morte!



Quisera ser como São Francisco de Assis, e poder chamar-te irmã
Porém como humano mortal não sou capaz, e temo;
Tenho medo, tenho dúvidas com relação a ti.
Ceifas vidas igualmente pela terra inteira, sem distinções
E a todos colhes, seja rico ou pobre, negro ou branco, vermelho ou amarelo.
Vens do raiar do dia ao silêncio da noite, não descansas, quando és portadora do descanso.
Tens empunhada a foice, como instrumento de jornada, rumo a jornada que não tem fim.
Visitas da cabana ao castelo, sem ter barrada passagem em lugar algum,
Todos procuram fugir de ti, ledo engano: não se pode fugir ao encontro marcado,
Nem barganhar horas, minutos a mais.
Não temo o que és, mas o que representas, porque quando vens é que se percebe ter-se deixado de fazer tantas coisas ou dizer outras mais, e aí compreendemos que o fizemos não foi o bastante, nem será jamais.
Tua face só apavora aquele que sabe ter chegada a hora da grande Verdade; que não teme a ti, mas a si próprio pelo que fez ou deixou de fazer.
Há os que te bendizem  pelo alívio do cessar da dor e do sofrimento; há os que te amaldiçoam pela separação e pela dor; mas quem há, que te chame de irmã-amiga, ou tenha por ti sentimento de afeto, pois como querer bem a quem não se compreende?
Como querer que te amem, aqueles cujos amores foram breves. Como querer que te amem aqueles cujos amores foram eternos. Como querer que te amem aqueles que amor não tiveram?
Talvez se viesses serena, sem assustar a quem buscas; talvez se viesses compassiva, sem machucar a quem fica; talvez se viesses como vento em suave brisa sem lágrimas; talvez se viesses como poesia que enleva o sentimento, serias bem recebida e quem sabe amada pelo que trazes e pelo que deixas...
Mas como em toda passagem tua, só és lembrada pela dor e pelo pranto, e o homem ainda não pode chamar-te como chamou-te o Santo, resta ao amigo tempo tornar menos amarga tua visita, e com o passar dos anos aceito o teu mister.
Nada mais natural que a tua vinda, pois o humano mortal não sabe ainda, que para alcançar a eternidade, tem de aceitar morrer e colher os frutos aqui deixados para ser digno da imortalidade.
Que quando tu vier bater á minha porta, eu saiba acolher-te como benção e não como castigo, pois é abençoado o que pode dizer ao chegar sua hora: já vivi tudo que me foi permitido, que a morte me traga a paz há tanto esperada. Se da vida nada levo somente o amor que semeei, quem fica possa ao menos lembrar com saudade que por aqui passei.
Liane Furiatti
Enviado por Liane Furiatti em 27/07/2006
Reeditado em 19/01/2009
Código do texto: T203111
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Liane Furiatti
Curitiba - Paraná - Brasil
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Liane Furiatti