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R.I.P. - DESCANSE. EM PAZ.


               Nao sei se me encontrarás no mesmo endereço se, por alguma casualidade (tu, que gostas tanto dos acasos) ou por razao específica, vieres a me buscar. Tampouco garanto que os números que conheces – de casa, do trabalho ou da bendita coleira eletrônica, o celular – serao os mesmos. Tenho um palpite – aliás, palpites ou intençoes, sao tudo o que tenho agora – de que eu própria nao serei reconhecida na rua por ti. 

               Cansei da roupa velha que uso e que é a que conheces. Há alguns pontos de mim em que ela nao mais se ajusta. Outros há em que sobra sempre alguma coisa. Nao gosto de reformas e sempre que se poe remendos em roupas novas já se sabe de antemao que o resultado será o pior possível. Preciso fabricar e vestir de imediato uma roupa nova, mais adequado ao novo modelo que pretendo adotar. 

               È preciso que seja algo de um tecido que nao se amasse diante dos muitos esbarroes, puxoes e arranhoes que a vida tao providencialmente vai nos dando por maos alheias, obviamente com a permissao e omissao de nós próprios.
Preciso de mais cor no tecido, de forma a que possa ver-me mais viva, sem este cinza de dia chuvoso que ando vestindo por conta das intempéries, algumas delas trazidas por nuvens que vieram das tuas incertezas e senoes. 

               Preciso mudar o endereço porque a pessoa que habitou o endereço antigo está moribunda, de vez que a venho matando a pequenas doses de veneno que injeto nos sonhos e sentimentos que algum dia alimentei, acreditando que seriam reais para um e outro. Aquela moça definha dia após dia porque deixei de alimentá-la, de vez que enquanto ela existir, eu estarei em sério risco de extinçao. Mas nao se preocupe, ela terá um funeral digno com direito a coroa de flores e epitáfio adequado com a inscriçao de praxe de “Descanse em Paz”. Espero que ela consiga. 

               Caso, mesmo depois de tudo isso, tu ainda possas reconhecer-me, talvez seja de bom tom que nao me cumprimente, porque com tantas mudanças, pode ser que minha memória tenha apagado o teu registro. Para sempre.



Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/07/2006
Código do texto: T203346

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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