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(Imagem de A Brito, www.thousandimages.com)

NUA, CRUA, VISTO POESIA

               Trabalhaste tão bem, tanto fizeste que por fim tive que tirar  tua pele que me vestia há tanto e assim, meio louca e desvairada e nua, sobrou-me apenas ganhar a rua e buscar o que vestir, ainda que fosse a réstia de uma luz de lua.
 
               Em vão. A lua minguara e nada havia e só me restou seguir exposta e crua, enregelando os ossos sob o vento de solidão que vinha dos olhos da multidão de isolados  na rua. Ratos aos montes roíam o avesso da pele solitária que eu ainda pensava em voltar e pegar, de vez que nada encontrara. Um cheiro de mofo de cem anos sem sol e de solidão e uma ameaça de verde-azul de bolor começam a brotar por todos os cantos de minha pele agora exposta. 

               Tento escapar em busca de abrigo, mas a solidão tem olhos enormes escancarados para cada movimento e pensamento meu, antecipa meus passos, bebe a largos tragos meus medos, vacilos e tropeços. E a lua, antes minguada, agora é nova. Nova escuridão. E nada encontro pra vestir. Cavo com o que restou das unhas dentro de mim um enorme poço onde estão as palavras. Tramo, com o que sobrou no lugar do coração, um resto de poesia com que me visto...
  Não  completaste bem teu trabalho.
                         
              

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 27/07/2006
Reeditado em 17/08/2006
Código do texto: T203495

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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