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A MULTIPLICAÇAO DAS MISÉRIAS

               Nao sei ao certo como dizer, mas a verdade é que quem tem que ter as respostas na ponta da língua a dar aos outros o tempo todo e na hora exata, acaba tendo, na ponta da mesma língua, zilhoes de perguntas para si mesmo para as quais nao encontro respostas, sejam elas certas ou incertas. 

             Também sem saber a razao, esse negócio de ser forte todo o tempo uma hora faz com que a gente queira ter o direito ao vacilo, à incerteza e a retroceder para rever. Acaba precisando, necessitando mesmo de uma parada estratégica. Aquelas do tipo sair para longe do quadro para melhor apreciar os traços do desenho, o sentido das pinceladas, o uso das cores, enfim, ter uma visao mais ampliada da coisa. 

               Dói-me, ainda, como espinhos cravados nos meus olhos a dor estampada nos teus e ainda molha minhas maos, com gosto de sangue, as lágrimas dos teus olhos. Carrego ainda comigo a dor de nao sentir o que me era necessário para acreditar que poderia transformar sonho em realidade. Busquei o sentimento que desejava tanto para transformá-lo em palavras em todos os buracos do meu peito. Encontrei um eco, um oco, um vazio. Acredite, a dor do vazio é para mim muito maior do que a dor da raiva, da revolta ou da indignaçao. O vazio é um imenso polvo com milhares de braços que te apertam até sufocar. 

               Vazia, oca e praticamente inexistente. Nao cabem sonhos em peitos vazios. Nao há onde guardá-los e nem como alimentá-los. Nao me sobrou escolha. Sobrou-me apenas o direito à realidade estanque, numérica, incompossível com os sonhos e principalmente, fatal. 

               Nao me dou o direito de dividir vazios. Nao me dou o direito de dividir minha miséria com alguém pleno de sonhos e sentimentos. Divide-se sonhos, sentimentos e aí, num sentido inverso, estes se somam. Mas a miséria, meu amigo, quando dividida, se multiplica. Em progressao geométrica.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 28/07/2006
Código do texto: T203982

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai