Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Desabafo da Manhã

Quando buscamos alguma coisa e rodopiamos sem parar dentro e ao redor de nós mesmos criamos o caos dentro de nós. Quando nos encontramos descobrimos que nos falta ainda alguma coisa.
Mas será que fomos nós que deixamos de buscar o que nos falta, ou, o que nos falta fugiu de nós?
 
Tenho claro para mim que corri anos a fio atrás da metade de mim que estava faltando. Mas essa metade sempre fugiu de mim, gritando em seu silêncio que para mim, viver só com uma parte de mim, era o caminho para minha felicidade.
 
Foi assim como o é na história dos astros. O sol corre da lua cada vez que ela se aproxima. E nesta história de busca de mim, sofri muito. Doeu demais ser rejeitada sem nem mesmo saber porque. Você se sente um lixo, um zero à esquerda. Você se sente como uma bola sendo chutada de um lado para o outro do campo.

Então você pensa: Chega de gritar, chega de falar sozinha. Você já implorou tanto, já chorou tanto e ninguém lhe estendeu a mão quando mais precisava. Você sofre pois lutou tanto, tanto, por você e pelos outros e perdeu todas, todas as batalhas. Você se rende como soldado derrotado.
 
Quantas vezes você gritou? Quantas vezes você pediu? Quantas vezes você implorou? Quantas vezes você decidiu entrar no barco sem nem ao menos saber para onde ele ia e ao fazer isso todas as portas para o mar alto se fechavam imediatamente? Todas as vozes se calavam? E então você descobre que está sozinha na luta. E você fica só. E então a dor vem. Rasgando por dentro. Consumindo você por inteira. E no meio dessa dor, você encontra o que buscava afinal, mas morre ao encontrar.
 
Essa morte de você não dói mais porque você já está anestesiada pela dor. Essa morte de você mesma te purifica. Te liberta. E você pela primeira vez, vê você e você mesma de forma diferente. E tem medo. Pela primeira vez tem medo de falar, de dizer. Porque quando falava o que parecia perto se afastava de você. Fugia correndo como vento norte. Os jardins dos sonhos já estavam fechados para você. As vozes, mesmo as do passado, já estavam caladas para você. O sol fugia da lua como furacão.
 
O que fazer? Você escreve num velho papel uma mensagem. Nessa mensagem você fala tudo o que se passa no interior de você. E deixa ali registrado para que o tempo veja, para que o sol que nasce cada dia compreenda. Cada hora, cada minuto, cada pensamento está ali registrado.
 
Neste dia você sai para fora de você mesma e descobre que o jardim de sonhos está lá outra vez. Mas você fica na dúvida se é para você mesmo que ele se abriu. Ou se tens de deixar de ser você para entrar. Neste dia você ouve a voz do sol em quinze atos falando com você. Mas são vozes de ontem ainda. E então alguém fala com você. Mas de quem são essas vozes? Seria a voz do sol, da alegria, da vida ou seriam vozes de outro mundo? O que elas dizem a você?
 
Uma diz que também tem medo de ficar sem o brilho da lua. Outra diz para você não recusar um gesto, um pensamento. Diz que um dia sol e lua se encontrarão no universo infinito. Outra diz que você está perdida, que o caos vive dentro de você. Diz que é você que tem o poder de mudar o seu caminho. De escolher entre dois caminhos que existem dentro de você. Mas você não tem mais essa escolha em você mesma. Você pode ir até onde deixam. Geralmente vamos até a porta de entrada. Mas se lá tem um guardião de plantão e você não sabe se é esperando você ou cuidando para você não passar? Então você fica ali, do lado de lá da porta esperando. Como as azaléias que vivem do lado de fora de uma solitária casa. Elas só podem entrar se alguém lá de dentro as vier buscar.
 
Assim é a vida. E assim sou eu. Estou aqui. Estou aqui neste banco solitário a beira da imensidão do mar esperando. Esperando o quê? Esperando o sol chegar, para aconchegada em seu calor, descansar afinal de minha longa caminhada. Mas então você vê que o sol está triste, solitário no céu. E o tempo fica escuro outra vez. E você deve se sentir culpada? Mas se tentou tanto? O que falta agora? Talvez dizer outra vez quem você é?
 
E fico confusa outra vez. Mas mesmo assim, estou em paz, quieta, silenciosa, à espera. O caos é a falta de algo. O caos é o início ou o fim. O caos é a compreensão de que sozinhos não fizemos verão. Mas uma andorinha cansada não consegue mais voar. Precisa ser carregada para saber para onde ir.
Maria
Enviado por Maria em 31/07/2006
Reeditado em 17/10/2011
Código do texto: T205780
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Maria
Blumenau - Santa Catarina - Brasil
4549 textos (185895 leituras)
1 e-livros (103 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 18:16)
Maria

Site do Escritor