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Um chocolate para Balzac...

Sentada em um simpático café, fim de tarde frio e úmido, típico na capital Paulista. O relógio prestes a marcar 18:00, o céu encoberto e carregado de nuvens cinzentas e densas, prenúncio de uma noite fria e chuvosa. Vem até mim uma balconista prestativa e agradável, cumprindo suas últimas horas de trabalho com uma  alegria peculiar, própria daqueles que  são felizes e vivem cada segundo como se fosse talvez o último e, quiçá, o mais importante. Sem dúvida e certa de meu mais pronto desejo, peço uma xícara média de chocolate quente; que após dois ou três minutos, chega até mim, esfumaçante e cremoso; denso e encorpado como as nuvens no céu.

Na mais imediata ânsia de aplacar o frio que tomava conta do meu corpo, adoço o liquido vagarosamente. Dois pacotinhos de açúcar que, ao serem despejados na xícara, mergulham no leite como se  fossem as gotas da garoa fria que bate no asfalto. Mexo o chocolate com a pressa de quem tem a vida toda e absolutamente nenhuma idéia do que fazer com ela. Fixo meu olhar no movimento circular da espuma, atropelando um pouco da canela salpicada por cima do leite, e vejo a minha vida, meus dias. Agora, Balzaquiana assumida, acabo de completar 31 anos de vida, entrei finalmente nessa década tão temida pelos mais jovens e tão saudosa para aqueles que já a deixaram para trás. Seria cruel dizer que me sinto velha...não são esses os sentimentos que me cruzam a mente. Seria, entretanto, ousado, arrogante e falso, dizer que me sinto com vinte anos. A era Balzaquiana é misteriosa, guarda segredos que se revelam a cada dia, pouco a pouco. Não é de um dia para o outro que se nota seu peso ou se descobre sua magia. É como se entrássemos finalmente em um túnel; iluminado por algumas velas aqui e ali. Anda-se, a maior parte do tempo na escuridão, tateando, tentando descobrir o melhor caminho e, de repente, uma pequena chama ilumina parte desse caminho, revela algumas faces do mistério. A meia-luz desnuda uma nuance, um pequeno fragmento do que seria o todo. Num demorado momento de contemplação – já não se tem a pressa dos vinte e poucos anos – percebo que  a chama ilumina dois caminhos, mas com intensidade de igual proporção, ela não sugere nenhum deles.

Tomada por incertezas filosóficas e de espectro completamente emocional, interior; inerentes somente a mim; penso, tento observar cada caminho com tranqüilidade e imparcialidade. Procuro diferenças, semelhanças, obstáculos, perigos. Quase que num transe mediúnico, tentando mentalizar mantras, esvaziando a minha mente – nunca fui muito eficaz com técnicas meditativas – me atenho as sutilezas das trilhas. Como é possível saber o que me espera, se os dois caminhos revelam apenas breu? Até que chegue a próxima chama, terei que tatear de qualquer forma. Viver é cruzar esse túnel. Entrar nos trinta anos é finalmente conseguir ter algum vislumbre desse desconhecido, pouco no entanto. Cada vela, cada chama que deixamos para trás é uma escolha que fazemos e outra que deixamos de lado. A melhor maneira de seguir o caminho é esquecer o que ficou e nos concentrarmos na escolha que fizemos. Voltar? Não é impossível, até porque sempre sabemos o caminho que trilhamos e tatear já não é preciso.  As velas? Sempre estarão acesas, elas não se apagam quando passamos por elas.

Volto de sopetão á espuma do chocolate quente, que agora já não gira mais; se junta no centro da xícara e me traz a  visão do espelho. Essa talvez seja a mais dura realidade das mulheres balzaquianas. Acordar pela manhã já não é tão sublime. O primeiro olhar no espelho é revelador. As pálpebras não parecem mais agüentar o seu próprio peso e as linhas ao redor dos olhos parecem estar mais enfáticas e brotar, como novos galhos de uma planta em crescimento. Damos conta de cada uma dessas linhas e as contabilizamos dia-a-dia. É fundamental agora saber quantas delas temos. Criam-se mecanismos de contagem e observação. Os cuidados diários com o corpo parecem durar mais. Agora devota-se mais tempo e orçamento a cremes anti-isso, anti-aquilo; máscaras de pepino, ginásticas para as bochechas e para a testa. Parece patético mas não é tanto assim. Confesso que há um certo charme em todas essas preocupações e uma sensação de bem estar nessa rotina. É maduro e jovem ao mesmo tempo. Ainda se pode tomar uma mega xícara de chocolate quente sem se preocupar com taxas de açúcar no organismo ou a pressão alta. Já se pode tomar uma xícara de chocolate quente sem se preocupar em ganhar 1 kilo ou 500 gramas...

Sou o que sou. Gosto de ser todo esse acúmulo de dias e meses, essa colcha de retalhos que são minhas crenças e meus sentimentos. Gosto das coisas nas quais acredito, acredito nas coisas que gosto. Vivo cada um dos princípios que adquiri em tantos anos e adquiro novos a cada dia. Tenho discernimento para saber o que não quero, no entanto aproveito todos os momentos de dúvida e gosto da aventura de não saber exatamente o que fazer. Passo a passo dentro do túnel, gosto de seguir tateando e sinto falta do revelar das velas. De frente para o espelho, aprecio as linhas que vejo porque sei que são esculpidas com sinceridade e verdade de sentimentos. Sigo em busca de mim, de mais, sem saber o que vou encontrar, sem saber o que revela o fim da trilha, mas certa de que chegarei lá, aproveitando cada segundo e cada facho de luz que me for concedido.
Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 01/08/2006
Reeditado em 02/10/2006
Código do texto: T206745
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Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
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