Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

(imagem de João Castelo Cravo, www.thousandimages.com)

ÀS VEZES. SÓ ÀS VEZES.

                    Tenho uns repentes. Sou feita de mudanças bruscas e súbitas incoerências (o que é perfeitamente coerente). Tenho dias de achar que todo mundo devia ser feliz. Assim, por decreto. Do tipo: “A partir da publicação deste, todo ser humano deve ser imensamente feliz e, em não o sendo, deverá explicar detalhadamente, por ofício em duas vias, sendo a primeira mantida em arquivo secreto e a segunda enviada para si mesmo, todos os impedimentos que o levaram ao não cumprimento do anteriormente disposto.” Tenho isso. Meio doido? Pode ser e pode até não rimar, Carlos, mas já seria uma solução. 

                    Só que aí tenho um repente. E começo a achar extremamente perigoso ser feliz e aí começo a encher meus olhos de realidades, de tragédias inomináveis (minhas ou alheias, é irrelevante), quero me esconder num buraco escuro e abraçar para mim toda a miséria de cada vivente. Viro um bibelô de louça de 1,71m de altura e apesar dos 58 kg de peso, carrego uma incompossível fragilidade. 

                    Choro pela humanidade inteira: os que estão perto, os que estão longe; os que eu feri, os que me feriram; os que eu quis, os que me quiseram, os que eu quis e não me quiseram, os que me quiseram e eu não quis. Não importa: assumo todas as dores, mas escondida para que continuem me crendo forte e insensível. Que me vejam má, que importa? Só importa a dor a que me obrigo. E não quero anestesia, thank you, sir. Quero a dor inteira, com direito a espasmos, soluços de choro galopante e crescente, dar com a cabeça na parede e tudo o mais. 

                    Eu nunca imaginei o que estaria por detrás desse negócio de querer me doer tanto e recusar o cumprimento do decreto da felicidade. Até hoje. Talvez tenha que debater melhor isso com a minha gurua e doutora das idéias, mas estou concluindo que sou mesmo megalômana. No fundo quero provar a mim mesma quanta porrada eu agüento. E saber que saio mais terrível depois de cada uma delas. Ou não. Sei lá. 

                    Acho que às vezes ser feliz é perigoso. Às vezes sou de fina porcelana, às vezes sou de ferro, às vezes choro baixinho, às vezes berro. Às vezes tenho que pensar pra agir, às vezes preciso agir pra conseguir pensar. Às vezes sou a Louca; às vezes, o Cérebro. Às vezes sou Helena, Joana, Eduarda, Maria, Josefina. Às vezes, Débora. Mas cansa pra burro.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 01/08/2006
Reeditado em 01/08/2006
Código do texto: T206845

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154025 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 16:22)
Débora Denadai