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MORTO-VIVO


18/03/1987


O Morto-Vivo


A aurora vem chegando, e as últimas horas da madrugada,
com suas sombras, se vão.
Vão para o infinito...
e nessas horas vazias, antes do sol acordar,
rolo com meus pensamentos que não se cansam de me visitar.
Depois que tu foste embora,
eu sonho de dia e passo a noite a meditar.
Ando como um morto-vivo, que tem a alma a penar.
Contigo se foram meus ideais,
minhas alegrias e meus bons sentimentos.
Por que, ingrata, cumpriste tuas ameaças?
Por que, malvada, me fizeste tão feliz?
Por que, vulgar, me deste tanto prazer?
Ah, não, não devias ter-me acenado a felicidade tão de perto, se depois pretendias levá-la para o inalcançável.
Devias antes ter-me deixado continuar a procurá-la só.
Não precisavas ter-me feito viver uma vida de pecados,
e feito-me tão viril,
se tencionavas deixar-me agora apenas teu aroma,
e talvez espalhar teu sabor a outro que te dê nova chance.
Agora vejo que o ódio e o amor são tão estreitos,
gêmeos do mesmo peito, quanto o abstêmio do ébrio,
o bem do mal, a justiça dos homens.
Eu, que era um folgazão, promissor, orgulho de família,
quedo-me agora a imaginar quem será Deus.
Abalaste-me o mais ínfimo de meu ser
com apenas teus caprichos, e agora, que é de mim?
Pobre morto-vivo, que tem a alma a penar.



Retorno - (O Amigo)



Enfim, então, acabou-se? Já não era sem tempo.
O que fizeste, como fizeste, não resultaria outro fim.
Bem te disse, agiras errado desde o começo, não viste tu de exemplo vivo que isso haveria de ocorrer?
Quanta abnegação, quantos sacrifícios, remodelar a vida que tinhas pelos doces encantos de uma vida como outra qualquer.
Não te acabrunhes, porém, destas, há dúzias dessas lá fora, que sorriem para conquistar, que choram para nos envergarem aos seus desejos, e depois que conseguem, vão procurar outra pessoa qualquer.
Se não estais com os bolsos arruinados, foi porque deste teu pensamento e tuas emoções, e talvez tanto, que ela julgou-te como a quem mais nada tem a oferecer.
Deste sorte, outros, além de palhaços, pobres capachos, acabam ao fundo de um rio, arruinados.
Há de começar novamente, meu amigo, hoje é dia de bater asas como dantes.
Empruma-te e vem! Tantos têm saudades de ti, e folgarão ao ver-te.
Nossos fiéis amigos e nossas leais companheiras anseiam-te desde que deixaste a boa vida!
Amanhã ou depois encontrarás outra princesa, que assemelhará distinção, como essa que te fez agora, ensinando-a a lição.
E então talvez farás como eu, que vos falo, que nunca nessa armadilha caí.
Pois o fundo é vazio, e negro, angustioso e sem modo de encobrir o que nos é marcado com fogo em brasa.
Aqui estou à tua frente, amigo, para te conduzir de volta à nossa estrada.
Livre estás, viva a liberdade!
Algumas garrafas de vinho, carinhos dos colegas que se foram te consolarão com presteza!
Usemos teus parcos cobres para o que merece!
Já perdemos muito tempo, chega de demora!


Oferta - !A Prostituta)


Ah, meu amigo, que fazeis assim tão recluso,
quando a vida continua a mesma por essa porta afora?
Enclausurastes-te de bom grado, deixando a vida de desregrado que fostes para ser homem de brio?
Deixaste a bebedeira e a folia para a bonança,
não foste desregrado, bem o vi eu,
para conseguir o que na vida, todo homem são procura,
a real finalidade, de conquistar o amor de uma mulher.
E a que se compara este?
É um perfume que sufoca, uma beleza que cega, uma maciez que queima.
Ah, bem o sei eu. Quem não viveu situação idêntica?
Trocar o vazio pelo cheio.
Porém, nessa hora em que o sol escurece,
e o céu, embora azul lá fora, parece que vai desabar,
não há o que console a perda que tu sofreu.
Via-te outrora um rapaz bonachão, sempre a brincar com a tristeza alheia, nada te tocando o coração.
E a esperança, doce que é, quando satisfeita,
traz-nos enfim essa caixa de Pandora.
São as viradas da vida.
Envelheceste o suficiente para perder as despreocupações,
porém nem tanto que entendais que essas agruras vem como vão,
e o que hoje parece a morte, amanhã verás como lição.
Sabe, porém, que podereis contar com esta amiga que vos fala,
para calar se te fizeres bem, e para conversar se te aprouver.
Acolher-te-ei em meu leito, para que tua virilidade não murche agora,
belo exemplar de homem.
Far-te-ei carícias que te enfunem, e agüentarei sem um gemido
as explosões de sentimentos que por certo virão.
Faz parte da minha profissão,
contudo não te esqueças que sou tua amiga, para todas as horas.
Unamos o que sou ao que precisas, pois disso também preciso eu.


Lamento Inconsciência - (A Mãe)


Resignai-vos. Estais a colher o que plantastes.
Então não te avisei?
Se houvesses feito proveito melhor de minhas palavras,
ao invés de atirá-las ao léu como entulho imprestável,
não estarias agora com esse gosto de fel a te torturar.
Qual boa moça haveria de agir como esta?
Atirar fora tão bom e valioso homem, de bom berço e fina educação, consciencioso que foste com quem não merecia um só olhar mais profundo!
Inconsciente ao te deixar levar por vã aparência,
faceira mas traiçoeira, descontinuastes até os estudos,
fugistes às regras da boa educação e até de Deus Pai.
Ficastes cego aos bons costumes,
surdo aos conselhos desta que te deu à luz, e agora,
padeces por tuas próprias mãos.
Atiraste à lama o bom nome de família que teu progenitor te outorgou, vexaste-me ao ponto de eu não querer mais ver a luz do sol,
e fez-me arrepender do momento em que te concebi.
Agora, filho insano, aonde te levarei?
Não tenho mais alma para velar por ti,
e talvez nem a ciência dos doutores possa te atender.
Creio que o Santo Padre não quererá que manchemos o átrio santo com a podridão dos teus pecados, há tanto
inconfessos.
Tua ama não cansa de debulhar-se em lágrimas
que nem sei mais de onde provêm. Que fizeste, ingrato?
Negligenciastes o sangue nobre, o colo de tua própria mãe,
a benção e a luz de Deus Todo poderoso,
a instrução vital aos teus moços dias, à quem não te quis nem te mereceu.
Aprendes agora, negligente, ainda está em tempo de retornar à tua senda, já que ainda existe a vida,
e com vagar e sapiência hás de retomar o caminho interrompido.
Conta agora com o que até esse momento desprezastes, e vem,
volta logo ao seio da tua família, nem que por curto espaço de tempo,
pois sofro mais à cada instante por não poder te afagar,
tenho tantas lembranças de ti!
Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 02/08/2006
Reeditado em 02/08/2006
Código do texto: T207277

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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
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5 e-livros (337 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 16:44)
Edilene Barroso