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As vezes é preciso não ser pouco, amar como louco...

As vezes é preciso não ter esperança, negar até a fé, fincar o pé na porta, enfrentar as balas, bradar contra sabres. Marchar sozinho contra os tanques.

As vezes é preciso não ter dinheiro, nada nos bolsos, nem um duro osso roído dos carcomidos homens do viaduto. Vestir a carapuça, destemer a morte.

As vezes é preciso desfraldar a bandeira, entrar na escaramuça, dizer um basta a tudo que sustente a morte, ao que nos submete ao nada.

As vezes é preciso ser ignorante, negar a razão e tudo à frente: a ética vencedora, a estética predominante. Romper a métrica e a rima.

As vezes é necessário soltar as amarras, amar sem pudor, dizer besteira, mudar o destino, sair da linha, inverter a prosa, entortar o caminho.
 
As vezes é preciso negar a filosofia, a sabedoria aristotélica, a lógica platônica, o existencialismo. Partir do zero, negar a herança paterna.

As vezes é preciso ser cético total, votar nulo, niilista, ateu, anarquista. Abandonar a mística da revolução. Zerar tudo só pra acreditar em algo, um dia.

As vezes é preciso negar a civilização moderna, o ensinamento maquiavélico - do fim pelos meios – o que justifica a carnificinas das guerras e os revides.

As vezes é preciso se sentir na era antes do pensamento, se instalar em tocas. Trocar a informática pela lança e jogar pedras, sair na mão.

As vezes é preciso criar coragem, caminhar à margem, sacudir poeira, pular a cerca, cruzar o rio e detonar a ponte. Seguir em frente, sem olhar pra trás.

As vezes é preciso apostar na clarividência, questionar a ciência. Parar de pensar,agir por instinto, desobstruir os sentidos, ressuscitar os ritos.
 
As vezes é preciso parar. Sentar em lótus, meditar na margem de um rio límpido. Ser frágil e impreciso, uma casca de nós na correnteza.

As vezes é preciso escrever torto, abandonar a trilha, o ritmo, destoar do contexto. Ser bobo, tosco, pouco, mínimo. Idiota num mundo de espertos.

As vezes é preciso ser deselegante, desregulado, dissonante, dissidente. Deixar os outros quietos, boquiabertos com sua roupa colorida o cabelo disforme.

As vezes é preciso faltar ao encontro, atrasar o evento, ficar de pernas pro ar, na preguiça. Encher lingüiça no trabalho, desatento.

As vezes é preciso errar o alvo, dar bola fora, ser a bola da vez, perder a Copa. Cair em si, assumir erros, erradicar orgulhos, ouvir o outro.

As vezes é preciso ser frágil, pedir colo, bater na porta. Aceitar desaforo como cristo, só pra mostrar que o ódio é um mal e que vingança é igual a violência.

Eu estou meio assim: Misturando estações, Negando todas as lições, mais rude que erudito, menos bom e mais maldito, dando a mão à palmatória, chorando por pouco, amando como o louco. Enfim, esvaziando a embalagem....
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 02/08/2006
Reeditado em 02/08/2006
Código do texto: T207416

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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