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Navegando em outras Águas

Prévia do livro "Navegando em outras Águas"

Não guardo mais as lembranças de criança para não sofrer o dissabor daqueles dias sem inspiração, consternada, ante as dificuldades, sem poder fazer nada. Bem melhor é a espera por memórias que ainda vou construir quando puder me libertar da culpa de ter nascido num tempo que não compreendo o movimento, mas que ao mesmo tempo irá conduzir-me ao que tanto espero mergulhada, por vezes, nas águas do passado que insiste em não morrer. Pouco conheço de mim sem a referência das vidas que vivi num outro lugar que consigo vislumbrar na vigília das noites que cercam meus dias para abrandar a dor que sinto por estar aqui. Pouco sei do que quis aprender, pois a ansiedade estanca o que está por vir. E nesse caminho à espera das horas, navego sem destino com a ausência de quem espero, na presença de quem não quero pra mim.
Pouco digo hoje; de pouco necessito hoje. Apenas ouço.É prazeroso ouvir e sempre entendi assim. Calo para deixar que as palavras cheguem até o sangue que circula em meu corpo para revelar sua fragilidade e a melancolia que nasceu por falta de palavras que vão desobstruir o caminho para a libertação tão esperada e então seguirei feliz de volta pra casa. Minha casa...
Estou sentada, contida, querendo escrever um livro enquanto espero. Algum benefício pretendo deixar a humanidade na qual não reconheço o humano; na qual arrisquei confiança esquecendo o quanto há de humano em mim. Estou sentada, embalada por uma canção que há muito não escutava, mas reconheço-me em outro tempo a cada nota da melodia; a cada verso e refrão. É estranho ser transportada deste modo através de um som, enquanto espero. Horas cantadas, contadas, passadas: uma de cada vez. Estranha sensação do nada que remete ao vazio inexistente. O que existe é tão fugaz que seria capaz de acreditar que nunca existiu; como o nada.
Na verdade, ando meio cansada e uso um pretexto para, de algum modo, dizer, já que neste instante só sou capaz de calar. É no ofício de escrever que me sinto disposta a ouvir.É tão confuso colocar no papel a espera; dizer dela o quê? É impossível esperar sem escrever para contar dessa espera.
Não quero a angústia das perguntas, mas a libertação das respostas. Como é bom escuta-las; como é bom ouvir mentiras bem formuladas; como é bom descobrir a Verdade que elas revelam depois.
Sinto. São tantas coisas que posso sentir enquanto calo e quero. E é maravilhoso porque choro e desperto enquanto espero. Espero-te.
Tenho ouvido, por isso sei algo sobre a história que constrói e destrói mitos; sei acerca de mundos que percebo antes mesmo de sabe-los conhecer. Sei dos que se alegram, dos que sofrem, dos que também esperam.
Eu sei.
Isso não faz nenhuma diferença. Não me distingui, não me salva, não me traz o que busco, não me consola e não me liberta.
Não me reconheço. Pra que serve o espelho? Reflete apenas o que quero ver ou não.
Eu sei.
Sei que no princípio tudo era caos e que o princípio perdeu-se no infinito. E isso é magnífico! Então onde está o início? Não há, e isso é magnífico!
Todos os inícios se perdem, se confundem com o clímax que explodem dentro da cabeça, do coração, da mente até a alma. Inícios são indícios do fim, mas o fim se perde no infinito, e isso é surreal! Então onde está o final? Não há, e isso é surreal!
Volto ao espelho. Pra que é mesmo que serve o espelho? Claro, serve para refletir apenas o que quero ver ou não. Quase sempre.
Há anos flagro nos livros o encontro harmonioso das palavras. Faço uso de tal harmonia para perfumar os meus dias e para jamais deixar de acreditar o quanto nos livros posso encontrar de mim, da vida, do Todo, do nada, dos inícios e finais que eu mesma posso inventar.
Dizem que sou louca porque invoco a lua; porque grito sozinha o desejo de voltar para o meu verdadeiro ninho: os céus, o cosmos, tudo que é infinito. É que ninguém percebe que espero. Dizem que falo demais, mesmo quando silencio. Digo dos outros, digo do Todo, do nada, do que reinvento. Digo é de mim. É que ninguém pode ouvir porque também, cada um, fala de si. Por que não calam? Talvez pudessem me ouvir. Por que não me vêem? È que ninguém percebe que espero.
Espero-te.

Gabriella Slovick
Enviado por Gabriella Slovick em 02/08/2006
Código do texto: T207511
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Sobre a autora
Gabriella Slovick
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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