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LIXO




14/04/1987




E o espaço se fez maior, mais seco, e frio, e a sensação de largo, firme, se fez maior.
Os sons enlouqueciam-me, e a luz, a tão almejada luz, era-me forte demais.
Minha reação primeira foi voltar ao túnel, encolher-me, comprimir novamente meu corpo com estas sensações tão bruscas comprimiam-me internamente.
Mas não podia. Não conseguia. Não devia.
Como conseqüência, chorei. Um choro que era um grito, um pedido de socorro, um lamento e um gemido.
Aos poucos fui-me adaptando, sentia algo que me envolvia firmemente: eu nasci.
Há tanto tempo...
E eu cresci, sentindo cada vez mais que o mundo era largo, e firme, e quando fiz meus primeiros ensaios para andar, tive novamente a vontade de voltar ao aconchego do colo morno, sempre cheiroso, macio e bom; mas não pude. Era irreversível. E novamente chorei.
Ah, meu primeiro aconchego de amor! Era morno e frio, firme e bom, mas ainda, a compressão era-me angustiosa, apesar da conhecida sensação de alguém envolvendo-me firmemente, e gemi, e gritei, porque não podia mais regredir, não podia retornar. Eu amei.
Conheci as mesmas sensações sufocantes tantas vezes durante a vida, e agora, novamente. Mais uma vez a luz cegando-me, os sons explodindo, o mundo tão largo, seco e frio.
Mas, desta vez, não há ninguém a me segurar, a me acalentar, a me envolver. Porque agora saio de uma penitenciária, sou a escória do mundo, marginal. Não sou filho, nem amor, nem amante de uma mulher.
Sou apenas filho da Miséria, amante da Vida, da Sobrevivência.
Sou o lixo (ou vítima?) da sociedade.
Tantos anos numa cela, aprisionado no ventre de uma cadeia.
Minha cabeça martelando de tanta opressão.
Não tenho lágrimas. Nem palavras para lamentar. Nem voz para gritar que sou humano, que nasci, andei e amei, porque não há ninguém para me embalar, nem acariciar.
Nem de onde acabo de sair me querem, só o que tenho agora: o mundo, que me despreza, pois dele sou o entulho.
Após tantas sensações vividas, creio que só me resta a última vez de sentir toda essa compressão mental.
A volta ao túnel. Talvez também largo, seco e frio.
A morte. Dela também não haverá retorno.
Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 03/08/2006
Código do texto: T208021

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Áudio
Lixo Humano - Edilene Barroso
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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
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Edilene Barroso