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Estado (Tristeza)




06/05/1987.




E qual é a saudade mais dolorosa?
É a saudade de alguém que já não existe?
É a de um amigo querido distante?
É a de bons tempos, já idos?
Ou é a saudade de um amor já findo?
O que dói mais? Qual delas?
Ultimamente ando tomada de uma agonia tão grande,
uma nostalgia tão profunda,
e sei que é a saudade que me incomoda.
Lembranças de meu avô...saudades...
Lembranças de amigos queridos...saudades, tristeza...
Dos meus tempos de criança, minha infância...
Amores já tidos, cães, bichinhos...
Uma reprodução de fatos, uma retrospectiva que me inunda o coração, me angustia,
e não é proposital, nem é de livre arbítrio.
Creio que seja isso necessário, mas para o que?
Por que fatos há tanto tempo ocultos, encarcerados, vêm todos num turbilhão?
E esse profundo sentimento de solidão, que me embota a visão, furta-me aos que me cercam,
e sei que de nada vale, que só agrava os fatos, então, por que?
Saudades... melancolia.
Lembranças...impingidas, doídas.
Basta-me um fato, corriqueiro, cotidiano, e cá estão as lembranças.
E sinto-me tão cansada, tão cansada e sem porque...
Há vezes em que o simples levantar de um braço meu parece esforço incabível.
Há momentos que esqueço que tenho pernas para andar, e às vezes, procuro parar de respirar.
Mas não é lógico sofrer. Não é racional penar.
Acontece que, independente de nexo, padeço.
É incompreensível, é nocivo, mas é espontâneo, independente da minha racionalização.
Creio que estou ficando deprimida, e eu não queria estar assim,
queria te falar de beleza, de luz e alegrias, mas não posso.
Passo para essa folha o que sinto, e afirmo que como ser humano que sou,
você também sentiu, ou sabe agora sinta, ou consiga senti-lo comigo. É real.
Nem tudo é luz. Nem tudo é otimismo.
Sei que sinto, e sinto muito por estar assim, falar assim.
É tempo perdido, não vivido, que pena!
Talvez seja um grito estrangulado, uma lágrima estancada, ou uma alegria reprimida,
que manifesta-se nesse marasmo de insatisfações, e tantas saudades talvez sejam
a impossibilidade de viver a plenitude de uma ventura, presente, passada ou não alcançada.
Ser humano: sou gente, sou mulher.
Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 04/08/2006
Código do texto: T208765

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Estado (Tristeza) - Edilene Barroso
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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
192 textos (21460 leituras)
12 áudios (4784 audições)
5 e-livros (337 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 11:36)
Edilene Barroso