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Precisa-se de um amigo





(data provável – 1987)




Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração.
Precisa saber falar e saber calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, de sol, de lua, do canto dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo, e no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve ser Dom Quixote, sem contudo desprezar Sancho Pança.
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas, e das recordações da infância.
Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que viu de belo e triste durante todo o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças d’água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo.
Procura-se um amigo que creia em nós.
Procura-se um amigo para se ter consciência que ainda se vive, embora já se sinta morto há muito tempo.
Precisa-se urgentemente desse amigo.
Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 07/08/2006
Código do texto: T210845

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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
192 textos (21460 leituras)
12 áudios (4784 audições)
5 e-livros (337 leituras)
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Edilene Barroso