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estância solitária

Não existe mais o fragor da bronca vibrando os corredores das pedras, nem mesmo o ranger das pernas de madeiro sob o choupo-branco, nem a sombra da silhueta austera que arrefecia o chão de terra socada, nem o olhar do Sinhô  estático para o nada. Não existe mais a folha seca do tabaco e nem o cachimbo sobre o mármore, calcário obsoleto, pedaço de pedra fria sem vaidade. Sequer a palha sobrou, não há centeio e o cabano é  farrapo esquecido, perdeu o garbo das grandes abas  e no oco dele  ronrona o maltês. Não existem mais  as leiras de cana doce perfumando a terra e nem o melaço de caçarola a cozer sobre o fogo de lenha. Não há pão ou o folhado de manteiga e nem dedo de geléia framboesa, falta o odor do café moído escorrendo no tecido de coar. Não existe mais a primavera na estância do Sinhô, sementes não germinam para flores ou frutos, apenas brotam apegos do passado, um verde mirrado amanhecido em rocio. Antes de não existir o nada se ouvia o vozear e via-se o Sinhô e seu cavalo, a explorar o pasto no trato do boi que era barroso e desse, o boi,  restou o arcabouço no descampado do rio seco, hoje, córrego das minguas. Nada existe na estância, quer-se o Sinhô meu Pai. Ele detém sobre o olhar exânime o solo do não existir chovido da minha saudade.

[direito autoral reservado®]
marcia eduarda
Enviado por marcia eduarda em 13/08/2006
Reeditado em 15/08/2006
Código do texto: T215418

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Sobre a autora
marcia eduarda
São Paulo - São Paulo - Brasil
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marcia eduarda