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O VENENO DO ESCORPIÃO

                    Teu olhar me enxerga assim: altas torres, espécie de castelo recheado de labirintos, pontes de ferro, erguida sobre uma rocha inexpugnável. O que vês é um tipo de hostess que serve risos a tantos, diverte-se com ironias e sarcasmos (com uma dose de maldade, confesso), servindo a mim mesma também numa espécie de dionisíaco bacanal ou grande teatro onde sou a artista principal e a espectadora VIP ao mesmo tempo, sentada no melhor lugar da platéia. 

                    Não sabes que além de mim, muito além do que consegues avistar, muito além das minhas palavras, há algo coberto por um véu bem escolhido, em benefício do meu próprio interesse. Gastei muito tempo domesticando as feras dos meus sentidos e, porque não, dos meus sentimentos também, de forma a evitar que me corroessem por dentro e me servissem a ti ou qualquer outro numa bandeja de prata com maçãs na boca e azeitonas nos olhos. 

                    Não sabes que me custou chegar aqui e saber que a única escolha possível chama-se EU, e que liberdade e espaço são inegociáveis. Não sabes que não busco, não preciso e nem quero muletas. Não percebes que, muito antes dos meus sentimentos, estão a minha liberdade absoluta, irrestrita e que eu própria mexo as cordinhas dos bonecos, mesmo quando parece que eles estão atuando. 

                    Esta sou eu: um negro escorpião, despreocupado do futuro e com as pinças em ação mesmo quando em posição de descanso. Cauda levantada, nunca se sabe quando a picada será necessária ou mesmo indispensável. Devassa, perversa, devastadora, o que vem primeiro é a minha vontade, ainda que pareça a ti que é a tua. A que te permite uma cópula pacífica de ti com tua falta de coragem, tua falta de ação ou tua covardia disfarçada de cautela. A que parece estar disponível, quando na verdade, a escolha foi dela e o teu fazer caso ou não não lhe importa. Esta é a que te convém, a que gostas. 

                    Acontece que esta, cujo veneno parece tão doce, esta, meu caro, esta não sou eu.


Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 16/08/2006
Código do texto: T217778

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai