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Uma lição de amor pela dor

Eu aqui parado em frente a esta porta
A lembrar de tudo o que vivi para até aqui retornar
E sequer reunir a coragem de um último passo dar
Com inquietantes perguntas a me incomodar:
Será que eles me aceitariam?
Será que mais uma rejeição eu suportaria?

Criei coragem e respirei fundo.
Carregava em minhas costas o peso de todo o mundo.
Levantei o punho para naquela porta bater
E logo me veio um último pensamento,
Que fez a minha mão enfraquecer.

Minha cabeça doía loucamente,
Tamanha era a minha confusão
Voltar para trás já não podia,
Pois o dinheiro não dava nem pra condução
E há dois dias sequer eu comia
Só sei que pra frente eu também não ia
Faltava-me a coragem e a determinação
Para deixar para trás o orgulho ferido
E pedir a meus pais o perdão.

Perdão por fugir de casa feito um ladrão,
Na calada da noite,
Pés descalços, ante pés descalços,
Até chegar lá no portão.
E eles só souberam de tudo no outro dia
Ao encontrar um bilhete que só ofendia
“Não consigo mais viver na mesma casa que vocês” - eu dizia
“Não preciso mais de vossa companhia”. – eu insistia
Ah! Coitado de mim,
Desse mundo muito pouco eu conhecia
Sequer imaginava o que o destino me traria.
Olha eu aqui, em frente a essa porta a pensar,
Em como a meus próprios pais devo me apresentar.

Ainda envolto em meus pensamentos
Duelando com este orgulho renitente
Não me apercebi do encontro eminente.
De súbito a porta se abriu.
E rapidamente por ela um vulto saiu.
Não deu tempo para eu ver quem era
Pois agora era a vergonha minha quimera
Só notei que a pessoa nem mais um passo dera.
Nem para frente, nem para trás.
Estava ali, estática a me olhar.

Fui me virando lentamente,
Subindo o meu olhar
Que mirava inicialmente,
O chão a rodar.
Primeiro, reconheci os velhos chinelos surrados.
Depois, as meias e o velho shorts furado.

A cada centímetro que subia meu olhar,
Eram mais lágrimas no meu rosto a rolar.
Finalmente, olhei para aquele velho rosto conhecido
E reconheci meu pai, um pouco mais envelhecido.
Ele olhava pra mim e sorria chorando
O rosto iluminado, parecia que estava rezando.
E foi então que inesperadamente
Ele repetiu um velho gesto de infância,
Abriu os dois braços largamente
O que me fez correr como criança.
E quando estava envolto nos seus braços
Bem baixinho nos meus ouvidos ele sussurrou:
“O meu filho voltou! O meu filho voltou!”.
Roger Beier
Enviado por Roger Beier em 21/08/2006
Código do texto: T221671
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Sobre o autor
Roger Beier
São Paulo - São Paulo - Brasil, 39 anos
44 textos (4905 leituras)
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Roger Beier