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Desabafo

Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas. Mesmo que, a príncipio, elas se mostrem carrancudas e apáticas, é bom decifrar pelas linhas marcadas dos seus rostos, das mãos, a trajetória de uma vida que nem sempre foi fácil e feliz.
Minhas avós sempre me deram a oportunidade de penetrar no mundo delas. Porque, "toda idade tem seu prazer e seu medo", e é sublime poder compreender as causas de suas angústias, a origem de tantas lembranças que pareçam vir com toda força na época da cabeça branquinha e das rugas que dão um ar de bondade (adoro essa imagem, a impressão que tenho é que são iluminadas por fluidos etéreos). Ás vezes, elas me fazem chegar à conclusão de que tudo que passaram e sofreram valeu a pena. Ás vezes, tenho a visão de que a amargura as corroe como uma doença incurável.
Já a relação com meu avô paterno foi diferente. Ele era um homem que não se dava a palavras de carinho e, embora houvesse amor mútuo entre nós, não eram freqüentes os momentos em que eu chegava até sua alma. Foi só quando ficou doente que ficamos mais próximos. Nessas férias que passaram, eu deitava com ele à tarde, assistíamos à programação inteira da Globo juntos. E, nos comerciais, às vezes, quando a falta de ar não o impedia, contava uma de suas histórias de caminhoneiro. Até que um dia, fez as pazes com Deus, pois não pertencia mais a esse mundo. Mas, mesmo quando não levantava mais da cama, fazia com que meu pai ligasse o "Opalão", carro de 72, por qual nutria verdadeira paixão.
Ainda ligamos o carro uma vez por semana, ainda me surpreendo com detalhes de histórias que já ouvi mais de cinco vezes. Ainda ouço o pigarrear de meu avó de manhã e os gritos sinalizando que a "Ana-dor e o Oswarrrdo" estavam brigando. E ainda sinto saudade... pra sempre!

(Além de meu avós queridos, dedico este pequeno texto ao meu amigo poeta, Lucas Candelária, cujas palavras de luz e incentivo estão sempre ecoando em minha mente... adoro você!)
Maria Flor
Enviado por Maria Flor em 26/08/2006
Reeditado em 27/08/2006
Código do texto: T225680
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Sobre a autora
Maria Flor
São João da Boa Vista - São Paulo - Brasil, 27 anos
30 textos (1143 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 20:07)
Maria Flor