Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
O CORAÇÃO DOS ACONTECIMENTOS

Preciso escrever alguma coisa que não tenha a ver com coisa alguma.
Às vezes fico cansado dos meus motivos.
Tudo cansa. E isso é um grande consolo,
Pois até aquilo cuja perda lamentamos,
Um dia nos cansaria...
E aí tudo fica bem.
Preciso escrever alguma coisa que me cale,
Que feche a porta dessa ânsia de expressão
Que mais parece um desassossego,
Estranho desejo de tudo,
Falta de jeito para embelezar as coisas da vida.
Vocação para fazer do papel um salão de beleza
Como se a vida fosse uma mulher normal travestida de palavras.

Falta de olhos para ver que a vida não existe como um todo.
O que existe são acontecimentos.
Falta de mãos para pegar todos os acontecimentos.
Falta de razão para dividi-los,
Classificá-los,
Catalogá-los.
Falta de filosofia para dimensioná-los.
Realidade demais,
Sonhos demais,
Desejos demais.
Preciso escrever alguma coisa que avise aos acontecimentos que
A razão é senhora de todas as coisas,
Que a Filosofia aponta e domina a essência das coisas,
Que a História descortina as mudanças do mundo,
Que a Gramática organiza a minha expressividade,
Mas não! Não! Não!
Os acontecimentos não sabem de nada disso.
Ninguém contou isso para eles,
Por isso eles cagam potes para a Filosofia, para a
História, para a
Gramática.
Eles não foram chamados para o treino.
Não há tática para o jogo dos acontecimentos,
Por isso eu
Preciso escrever alguma coisa que toque o coração dos acontecimentos,
O coração engaiolado de tudo que acontece.
Preciso escrever no idioma dos acontecimentos
E entabular um diálogo com a única parte palpável da vida:
Os acontecimentos.
E assim começar uma nova literatura,
Um estilo de escrita que faria com que Nietzsche, se pudesse,
Escrevesse um novo livro: “ECCE HOMO: PORQUE SOU TÃO BURRO”.
Um estilo que mostrasse que não há acordo com a vida.
Uma literatura que fosse ao mesmo tempo uma sentença declaratória
De que é impossível colocar a vida num papel
E só nessa impossibilidade, em nenhum outro lugar, reside a utilidade do papel.
Preciso escrever o impossível...
Preciso ajudar a vida não permitindo que toquem nela,
Seja para dominá-la,
Seja para salvá-la...
Preciso escrever alguma coisa que simplesmente saia de mim, mais nada!
Preciso escrever alguma coisa na qual importe apenas o processo, porra nenhuma a mais!
Preciso inaugurar uma literatura que seja apenas educação física, nada além!
Porque tudo é muito físico, muito sangrento.
Não há metafísica que segure a vida.

Às vezes não leio nada do que escrevo
Porque da feita que está no papel, foda-se, meu problema acabou.
Queria que fosse sempre assim porque
Escrever é uma espécie de sangria.
Impossibilidade vital deitada dormindo no papel,
Tempo pelado no papel, indiferente para a vista alheia,
Sem-vergonhice nutriente...
Isso é escrita de vida,
Isso é escrita de vivo.
Preciso escrever alguma coisa que não me mate,
Carimbo da vida em papel,
Documento inútil...
Escrita sem descrição.
Respeito ao vir-a-ser.
Simplesmente vir a ser,
Processo.
Vírgulas sem ponto.
Reticências eternas, pautas sem fim, tintas de todas cores...
Preciso escrever alguma coisa que não tenha fim
Ou que acabe quando gente menos espere,
Como a vida...
Iguaçu
Enviado por Iguaçu em 01/09/2006
Reeditado em 01/12/2006
Código do texto: T230142

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Iguaçu
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil
118 textos (9999 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 12:14)