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QUE MEDO (reeditado e mexido)

O medo que pensava passageiro, exagero, um erro, que fosse ligeiro, ficou no fundo e depois desabrochou aqui e ali e continua aparecendo vez e outra. Hoje tenho medo de não mais perder este medo.

Eu que já pisei em calos, falei pelos cotovelos, desanquei eruditos, alie-me com os famintos, gritei na porta de embaixada americana. Falei baixaria, fui em passeata na ditadura, gritei na rua pela anistia,  sempre carregando o medo na mochila.

Eu que tinha horror a milico, achava que iria parar no pau-de-arara, tortura, que seria seguido, banido ou coisa assim. Vejo que tudo passado, tempo ido, quem saiu do Brasil perseguido, hoje é ministro, indenizado, milionário...
 
Eu que fui meio hippie, estrada a fora, barraca nas costas, entrei sertão do Brasil, depois fiquei zen. Fiz macrobiótica, quase hare krishina, ecologista, caminhos alternativos, ativo, militante, politizado. Acabei cultivando outros medos

Medo de guerra nuclear, URSS versus EUA, de gostar errado, de brochar, de trair e ser punido. Do além, de dar e não receber, de fazer o mal, mesmo sem querer. De não saber perdoar, de perder todos os sentidos, de me sentir perdido, alucinado, esquizofrênico.

Tive medos medonhos, de sonhos, de acordar e não voltar, de tornar eterno o passageiro, de ficara preso no passado, de perder a razão, lucidez demais, de discordar de tudo, de ser um fora da ordem, de promover a desordem, anarquia.

Hoje ainda vivo em alerta, pois continuo tocando acordes dissonantes, sonhando em alto-falantes, discordando de tudo, mesmo na hora da harmonia. Tenho medo de ficar sozinho, de amar quem não mereça. De ser o último da fila, o único, o primeiro.

Tenho medo de, ao invés de falar, calar. De ficar sempre na contra-corrente, de bancar o valente, o viril e morrer na praia. De ser destaque, despontar e ninguém notar. De me achar incompreendido ou simplesmente só mais um fodido na multidão.

Tenho medo de não dar tempo de plantar a árvore, escrever o livro, de ver filhos formados. Medo das dívidas, dos juros. De assinar o cheque em branco, de dividir as dúvidas. Das dádivas, de Deus e seus trovões e do diabo a quatro.

Eu tenho medo de não mais perder este medo que pensava passageiro. De me complicar e não saber explicar o que já entendi. De não rir no final. De confiar errado. Amar torto. Gostar do roto, do rasgado. De bala perdida. De ver a ferida não cicatrizar. E o que é pior: Tenho medo da minha geração no poder.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 04/09/2006
Reeditado em 04/09/2006
Código do texto: T232688

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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